quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Papai Noel safado vai em cana na noite de Natal

Como um bom brasileiro, deixei para fazer as compras de Natal no dia 23 de dezembro. Fui a um shopping e gastei todo o meu salário do mês, o décimo terceiro e ainda botei algumas contas para janeiro, acreditando que seria o ganhador da Mega-Sena da Virada.

Saí de lá e fui direto para a casa da Sara, onde, no dia seguinte, aconteceria a ceia de Natal.

Sara: Oi, primo, tudo ?

Adalberto: Não.

Sara: O que houve?

Adalberto: Um velhinho, que me ajudou a carregar essas bolas até o meu carro, roubou o meu relógio. Acredita nisso?

Sara: Não. Você deixou um velho te roubar, Adal?

Adalberto: Eles estava armado. Disse que me mataria, se eu reagisse.

Sara: Ainda bem que você não fez nada.

Adalberto: Fiz um boletim de ocorrência na delegacia, só por desencargo de consciência. Vai que, né? Poxa, ele roubou o relógio, que eu mais gostava. Aquele que eu ganhei da promoção, do programa da Ana Maria Braga. Era exclusivo. Só existia ele no mundo. Se aquele velho safado não tivesse botado uma arma na minha cabeça...

Sara: Jesus! A velharada tá perdendo a linha. Hoje, mais cedo, quando fui contratar um Papai Noel pra vir aqui hoje, você acredita que ele ficou me paquerando? Me chamou de gostosa. Por pouco, não bati na cara dele. Respeitei a idade.

Adalberto: Como assim? O Papai Noel não vai ser o meu pai esse ano?

Sara: Ah, primo, não quero ficar dando trabalho pro tio Beto.

Adalberto: E contratou um Papai Noel safado? Meu pai vai ficar chateado. Ele adora ser o Papai Noel da nossa ceia.

Sara: O Papai Noel é safado, mas é velho. E barato. Agora, deixa eu te contar os presentes que eu comprei pras crianças. Me diz o que você acha. Pro Gero...

O telefone tocou, e eu agradeci a Deus por isso. Estava morrendo de sono e precisava tirar um cochilo, antes das pessoas chegarem.

Acordei três horas depois com a campainha. Levantei da cama com muito sacrifício.

Adalberto: Quem era, Sarita?

Sara: O Papai Noel. Ele foi se vestir.

Fiz cara de poucos amigos. Não estava gostando dessa ideia.

Adalberto: Meu pai já sabe, que você contratou um Papai Noel?

Sara: Falei pra ele.

Adalberto: Ele ficou triste?

Sara: Acho que não. Não pareceu.

Quando o Papai Noel safado saiu do banheiro, eu não acreditei no que vi: ele estava com o meu relógio exclusivo no pulso. Quis gritar, chamá-lo de ladrão, safado, bandido, cachorro, sem vergonha... Mas, em vez disso, peguei um facão, em cima da mesa da Sara, e apontei para o Papai Noel safado.

Sara: O que é isso, Adal?

Adalberto: Foi esse safado, que roubou o meu relógio. Olha ali no pulso dele. Liga pra polícia, Sara! Anda! Senão, eu te mato também.

Ameacei a Sara, só pra deixar o Papai Noel safado assustado. Queria que ele chegasse à conclusão de que eu não tenho coração, e seria capaz de matar a minha própria prima, caso fosse contrariado.

A Sara ligou pra polícia e eu encostei a faca na cabeça do Papai Noel safado. Ele ficou paradinho, chorando e me pedindo pra eu não mata-lo, porque ele ainda tinha que ver a família. Pura chantagem emocional natalina.

Vinte minutos depois, os policiais chegaram. Fiz questão de mostrar a cópia do meu boletim de ocorrência pra não dar chance de eles se comoverem com o Papai Noel safado.

Eles levaram o Papai Noel safado preso. E eu fui junto. Precisava recuperar o meu relógio.

Cheguei na casa da Sara quatro horas depois, exatamente à meia-noite, feliz por ver meu pai sendo, mais uma vez, o Papai Noel da família.

Feliz Natal para todos!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Lu pega filho de Eike Batista e quase vira a subcelebridade do momento

Ontem, antes de ir pro trabalho, passei na casa da Lu pra pegar o meu laptop, que ela pegou emprestado há duas semanas e nunca me devolveu.

Tinha uma multidão de gente na porta do prédio dela. Achei estranho, mas jamais imaginei que teria alguma coisa a ver com ela.

Quando passei pelas pessoas, que estavam plantadas no portão do prédio, descobri que se tratavam de jornalistas.

Repórter 1: Oi, o senhor vai à casa da menina do 301?

Adalberto: Vou. Como é que você sabe?

Repórter 2: Há quanto tempo ela tá namorando o Olin?

Adalberto: Namorando? Minha prima desencalhou? Tá namorando com quem ela?

Repórter 3: O Olin Batista, filho do Eike Batista.

Adalberto: Não. Só pode ser piada, gente. Dos lugares que a minha prima frequenta, os filhos do Eike Batista passam longe.

Repórter 1: Ela tem interesse na cerreira artística?

Repórter 2: Pretende se tornar uma mulher-fruta?

Repórter 3: Tem histórico como maria-chuteira?

Adalberto: Ah, faça-me o favor! Me dá licença, gente.

Que falta de respeito! Subi pro apartamento da Lu cuspindo fogo.

Lu: Primo, eu tou morta. Cheguei quase agora da night.

Adalberto: Eu sei. a imprensa tá toda lá embaixo, atrás de você.

Lu: Como assim?

Adalberto: Lu, você ficou com o Olin Batista?

Lu: Eu? quem é essa pessoa?

Adalberto: O filho mais novo do Eike Batista com a Luma de Oliveira.

Lu: Por que você tá me perguntando isso?

Adalberto: Porque todos os jornalistas tão aqui no portão do teu prédio querendo saber.

Lu: Meu Deus, mas eu não fiquei com ninguém. Só dei um beijo numa bibinha.

Adalberto: Como assim?

Lu: Eu apostei com as minhas amigas que, quem não pegasse ninguém, beijaria uma bibinha que estava lá se fazendo de homenzinho.

Adalberto: E como era essa bibinha?

Lu: Loirinha, pele bem rosinha, nem baixa nem alta, cabelo liso boi lambeu, camisa e calça juntinha.

Adalberto: Cara, você me descreveu o Olin Batista.

Lu: Eu fiquei com o filho do Eike Batista, então?

Adalberto: Ficou.

Lu: Mas ele é gay?

Adalberto: Não, mas parece.

Lu: E agora?

Adalberto: Não sei. Só vim aqui buscar o meu laptop, antes que você ache que ele é seu.

Lu: Primo, para. Você vai ficar aqui pra me tirar dessa. Lá fora tá muito cheio?

Adalberto: Dá uma olhada ali, da janela.

Lu: Senhor, o que é isso? Adal, o que eu faço?

Adalberto: Não sei. Diz que você só dá entrevista pra Luciana Gimenez

Lu: Comeu banana? Tu acha mesmo que eu vou na Luciana Gimenez, dizer que eu peguei o filho do Eike Batista, achando que era uma bibinha?

Adalberto: Foge pelos fundos, então, e deixa uma carta, dizendo que você é a Eliza Samudio.

Lu: Tu tá maluco mesmo, né? Aí que não vão mais sair da porta da minha casa.

Adalberto: Lu, eu tenho que trabalhar.

Lu: Já sei, vem cá comigo.

A Lu me pegou pelo braço e me arrastou pra fora do prédio. Desci morrendo de medo.

Lu: Gente, chega aqui, por favor.

E todos os jornalistas se concentraram ao nosso redor.

Lu: Olha só, vocês devem ter feito confusão. Eu não fiquei com filho de Eike Batista nenhum. Eu fiquei com ele aqui.

Adalberto: Comigo?

Lu: Fiquei! Só que ele estava com a peruca loira, que ele costuma sair pra não ser reconhecido na noite. Aí, como estava tudo escuro, alguém deve ter achado que ele era o Eike Batista. Mas o nome dele é Adalberto, ele é casado e a mulher dele morre de ciúme.

Adalberto: O quê?

Lu: É isso mesmo! Você é casado há dez anos. Não se faz de louco, não? Agora, graças a vocês jornalistas, a pobre coitada da mulher dele vai descobrir tudo.

O pior de tudo é que todos os jornalistas acreditaram nela. E foram embora desolados, porque a "grande" notícia do dia não era "verdade".

Subi pro apartamento da Lu, querendo enterrar a minha cara no chão.

Adalberto: Você é retardada?

Lu: Desculpa, primo. Se eu contasse pra você, eu sei que você não ia deixar eu fazer isso.

Adalberto: Claro que não. Você bebeu? E agora? E a minha reputação?

Lu: Ha-ha-ha. Reputação? Você? Primo, faz o seguinte: liga pro teu trabalho, inventa mais uma dor de barriga e vamos encher a cara e, depois, você pensa na sua reputação.

O pior é que eu fiz o que ela mandou. E jamais voltei a me preocupar com a minha reputação. Mas com a ressaca, que resolveu me castigar feio...

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Sara esconde o jogo sobre maestria no quadradinho de oito

Fui, ontem, pegar o Oswaldo ao aeroporto. Ele estava voltando de uma viagem a trabalho, e eu não sei por qual motivo o moçoilo não pode pegar um táxi. Tive que madrugar para chegar às 7h no Galeão. A Sara, obviamente, estava comigo.

Adalberto: Não sei como eu consegui dirigir até aqui.

Sara: Você é o melhor do mundo, primo!

Adalberto: Ah, sou, claro. Nessas horas, eu sou sempre o melhor do mundo. Queria ver falar isso, quando me visse trocando uma lâmpada.

Sara: Mas você não sabe trocar uma lâmpada.

Adalberto: Sei, sim.

Sara: Ah, Adal, fala sério. Você não sabe fazer nada direito.

Adalberto: Ah, é Dona Sara? Vou voltar pra minha casa agora! Não sei o que eu tou fazendo aqui.

Sara: Tou brincando, garoto! Sabia que você ia fazer ceninha. Adoro quando você faz ceninha. Aliás, você é o melhor do mundo, quando faz ceninha, primo.

Adalberto: Ah, é? E você é a melhor do mundo em me usar como motorista.

Sara: Ah, vai jogar na cara, é?

Ainda bem que um daqueles carinhas chatos, que distribuem revistas no aeroporto, surgiu para acabar com o princípio de troca de farpas entre mim e a Sara.

Carinha chato: A senhora quer ganhar três revistinhas de brinde?

Sara: Ah, quero, sim.

Adalberto: Não, ela não quer, não.

Sara: Quero, sim, Adal.

Adalberto: Sara, você não sabe que, quando você aceita essas revistas, os caras obrigam você a preencher um cadastro, falando tudo da sua vida?

Sara: Ai, Adal, que exagero.

Carinha chato: Então, senhora? Via ficar com as revistinhas?

Sara: Vou, sim, querido. O que eu tenho que fazer. Só pegar da sua mão?

Carinha chato: Não, senhora. Preciso fazer um cadastrinho antes.

Adalberto: Viu...

Sara: Pois, não.

Que ódio!

Carinha chato: Vai demorar só uns cinco minutinhos.

Mentira! O cara começou perguntando nome, identidade, CPF, título de eleitor, carteira de trabalho, endereço, filiação, estado civil, queria saber se tinha filhos, quantos, os sexos, os nomes, onde nasceram, o peso das crianças, com quantos meses nasceu o primeiro dentinho...

Adalberto: É sério que é importante saber com quantos meses os meus afilhados deixaram de usar fralda?

Carinha chato: Senhor, eu sigo ordens.

Depois, ele começou a perguntar as capitais do Brasil, os presidentes que o país teve, após o regime militar, os nomes dos principais rios da região Centro-Oeste, fez umas questões de lógica e, quando ia aplicar um teste psicotécnico na minha prima, eu cheguei ao meu limite.

Adalberto: Sarita, meu bem, eu vou lá na praça de alimentação comer um salgado. Tou morto de fome.

Sara: Tá bom, vai lá, Adal. É o tempo do Oswaldo chegar de viagem. Depois, me encontra aqui.

Adalberto: Não, é melhor você, depois, me encontrar lá, não?

Sara: Tá ok, primo.

Comi cinco salgados: dois por fome mesmo e três por pura ansiedade. Aeroporto me dá ansiedade, não tem jeito. Bebi um guaraná normal, tomei um sorvete, chupei um drops de bala de menta inteiro, conversei com três amigos no WhatsApp, e nada da Sara. Voltei até o stand do carinha chato, com o objetivo de arrancá-la pelos cabelos, caso ela ainda estivesse por lá.

E pra minha surpresa, ela estava deitada no chão, fazendo o quadradinho de oito. Naquele momento, senti uma vergonha alheia absurda e uma vontade louca de virar uma ema e enfiar a minha cabeça no chão pra nunca mais tirar.

Adalberto: Sara, o que é isso? Quadradinho de oito no aeroporto, é isso mesmo?

Assustada com o meu esporro, ela se desequilibrou, e torceu o pescoço.

Sara: Ai! Ai, meu pescoço! Tá doendo muito, primo. Ai!

Adalberto: Vamos prum hospital agora. Menino, me ajuda aqui a pegar a minha, prima.

Carinha chato: Não posso, senhor. Isso é desvio de função.

Adalberto: Ah, é desvio de função? E esse seu teste de sobrevivência pra dar três revistas de brinde pra minha prima é o quê? Eu vou processar você!

Peguei minha prima no colo, aos prantos de dor, e a levei para o meu carro. Antes, tomei três revistas da mão do carinha chato.

Carinha chato: Senhor, o senhor não pode fazer isso! Ela fo reprovada no teste, não pode levar as revistas.

Adalberto: Ah, não? Então, se você quiser mesmo recuperar esse lixo, me ajuda a carregar a minha prima, que eu te entrego lá no estacionamento.

Carinha chato: Eu não posso sair daqui da frente do stand, senhor.

Adalberto: É, então, tchau!

E fui correndo como um louco no meio do aeroporto, segurando a Sara e três revistas, que fomos descobrir no hospital, que eram do ano retrasado.

Sara: Ué, a Deborah Secco casou na igreja de novo com o Roger?

Adalberto: Claro que não! Aquele safado fez você prestar aquele papel de palhaça no aeroporto por causa desse monte de papel velho aí. Agora, por causa do interesse na vida da Deborah Secco, você tá toda quebrada aí. Era só o que faltava...

Sara: E  Oswaldo, Adal?!

Adalberto: Me ligou dizendo o tempo tá muito fechado lá no Sul, e que o voo foi remarcado pra amanhã.

Sara: Ai, que bom. Ele não precisa saber o porquê desse meu problema, hein, Adal. A gente diz que foi um acidente doméstico.

Adalberto: Sem problemas. Eu não vou te expor ao ridículo pro seu próprio marido. Ele nunca mais ia olhar na tua cara, se soubesse o motivo dessa lesão no pescoço.

Sara: Você é o melhor do mundo, primo!

Adalberto: Ah, claro, né? Nessas horas, e sou sempre o melhor do mundo. Agora, me diz uma coisa: onde é que você aprendeu a dançar o quadradinho de oito com tamanha maestria, Sara? Me explica isso.

Sara: Primo, tá na hora de buscar os trigêmeos na creche! Tem que ser agora, primo, senão, eu vou pagar uma multa. Esse mês, já me atrasei tres vezes. Na próxima, não vai ter perdão.

Adalberto: Você não vale nada, hein! Eu vou. Mas depois, a senhora vai responder a minha pergunta, tá? Espertinha!

Ela acha que eu sou bobo...

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Marjorie é nota dez no improviso

Ontem, quando me preparava pra tirar aquele cochilo de depois do almoço, a Marjorie chegou na minha casa.

Marjorie: Adal.

Adalberto: Não tá, não. Volta mais tarde.

Marjorie: Garoto, para de palhaçada, vim aqui pra te contar a última. Tô arrasada.

Adalberto: O que foi agora?

Marjorie: Não tô mais namorando o Alfredézio.

Adalberto: Por quê? Ele é tão legal.

Marjorie: Aí é que tá. Ele não é tão legal. O personagem que ele interpreta é tão legal. Ele é um imbecil.

Adalberto: Jura? Então, ele atua muito bem. Eu votava nele pra presidente do Brasil.

Marjorie: Ele é mentiroso compulsivo, primo.

Adalberto: Como você descobriu isso?

Marjorie: No sábado passado, ele estava doente e não pôde me encontrar, lembra?

Adalberto: Lembro, claro. Você acabou vindo pra cá, ficar comigo.

Marjorie: Pois é, mas, hoje, quando um amigo dele ligou, ele disse que tinha ido viajar e que tinha trazido um presente pra ele.

Adalberto: E aí?

Marjorie: Aí, eu quis entender. Perguntei se isso era verdade.

Adalberto: E ele?

Marjorie: Disse com muita naturalidade, que tinha mentido pro amigo, porque não queria ficar dando satisfação da sua vida.

Adalberto: Ué, que amigo é esse, que ele não confia?

Marjorie: Pois é, não entendi nada. Eu sei que, depois disso, ele foi me levar na Uruguaiana pra comprar uma lembrancinha pra esse amigo. Pra fingir que era do lugar pra onde ele tinha viajado.

Adalberto: Ai, que história confusa.

Marjorie: Calma, que você ainda não sabe da metade. Na hora de tirar o dinheiro, caiu uma identidade com uma foto dele e outro nome.

Adalberto: Mentira!

Marjorie: No nome de Argilelson. Morri de medo, mas não falei nada.

Adalberto: Não falou?

Marjorie: Não ali. Mas no carro, eu perguntei. E ele disse que era de um irmão gêmeo dele. E que eles têm o hábito de um sair com a cópia dos documentos do outro pra provar que existem duas pessoas com o mesmo rosto.

Adalberto: Provar pra quê? Se todos os irmãos gêmeos fizessem isso...

Marjorie: Pois é, mentira, primo! Ele nem irmão tem. Pelo menos, era o que ele tinha me dito, que era filho único.

Adalberto: E aí?

Marjorie: Aí, eu disse que queria ir embora, porque tinha me dado uma dor de barriga repentina muito forte. Só que ele não acreditou e disse que era pra eu cagar no banheiro do restaurante. Assim, com essas palavras mesmo.

Adalberto: E você?

Marjorie: Eu disse que só conseguia fazer cocô na minha casa. Mas ele lembrou que eu já fiz cocô num boteco pé-sujo no dia que a gente se conheceu e ameaçou me bater, porque eu estava mentindo.

Adalberto: Jesus! E como você saiu dessa?

Marjorie: Eu disse que, na verdade, eu era um policial do Core, disfarçado de mulher, tentando descobrir de qual máfia ele faz parte.

Adalberto: Mas vocês não tinham transado? Ele sabe que você é mulher!

Marjorie: Nada. Na hora agá, ele sempre inventava uma desculpa.

Adalberto: Gente! E o que ele fez, depois que você disse que era um policial?

Marjorie: Desligou o carro e saiu correndo.

Adalberto: E ficou por isso mesmo?

Marjorie: Não. Ele foi atingido por uma bala perdida, e uns trombadinhas que passavam pela rua, arrancaram a roupa dele, que era falsificada da Calvin Klein, mas eles, provavelmente, não sabiam.

Adalberto: Meus Deus! Tudo nesse homem é uma farsa! Ele morreu?

Marjorie: Ele, não. Mas ela, sim. No IML, me perguntaram qual o meu parentesco com o defunto. Eu disse que era namorada. Aí, eles disseram que só poderiam me liberar o corpo, depois da autorização de alguém da família da Aracízia Florentina Piedade. E que eu só teria esse poder, se fosse casada com ela.

Adalberto: O Alfredézio era Aracízia?

Marjorie: Sim. Eu estava há quase um mês saindo com uma mulher e não sabia.

Adalberto: Cara, se não fosse você me contando essa história, eu juro que não ia acreditar. Parece coisa inventada, que só passa em filme. Surreal.

Marjorie: Mas é tudo mentira, primo. Terminei como Alfredézio, porque ele não tem nada a ver comigo. Mas tô ótima.

Adalberto: Mentira que era tudo mentira!

Marjorie: Verdade!

Adalberto: Verdade o quê? É verdade essa história, né?

Marjorie: Não, primo. É mentira! O Alfredézio é homem mesmo, careta, fofo até dizer chega, chato, bobo, mimado e, por tudo isso, e terminei com ele.

Adalberto: Sua cachorra! E de onde você tirou essa história louca, de que o cara é mentiroso, não é homem, que fugiu quando você disse que era do Core?

Marjorie: Da minha cabeça. Quis testar o meu poder de improviso. Vamos tomar um chopinho lá fora?

Adalberto: Não, tô com enxaqueca.

Marjorie: Mentira! Você já me falou que enxaqueca é doença de madame e que não tem essas frescuras. Bora logo, levanta!

Pior é que nem era mentira. Eu estava com enxaqueca mesmo. Mas não ia dar o braço a torcer.

Não convenço nem falando a verdade...

domingo, 24 de novembro de 2013

Sara sai de casa mas, por pressão, se arrepende e volta

Ontem, quando eu abri a porta pra sair de casa, dei de cara com a Sara.

Adalberto: Que susto! O que você estava fazendo aí?

Ela estava com uma mala. E eu fiquei com medo, do que aquilo poderia significar.

Sara: Vim morar com você.

Adalberto: Hã? Como assim, morar comigo?

Sara: O Oswaldo disse pela terceira vez, só nesse mês, que eu preciso emagrecer. E eu já tinha falado pra na segunda vez, que ele falou essa besteira, que, da próxima vez, eu sairia de casa. Cumpri  o que disse. Vim morar com você, primo.

De jeito nenhum!

Adalberto: Sara, não tem problema nenhum você vir morar comigo, mas você não pode sair, assim, de casa. E os trigêmeos?

Sara: Eu vou buscá-los amanhã. Eles já estavam dormindo. Meus filhos vão morar comigo. E com o dindo deles.

Três crianças de dois anos, gritando pela minha casa o dia inteiro? Nããããããããããããããooooooooooo!

Adalberto: Sem problemas, mas e a creche deles? Como é que eles vão morar no Recreio e estudar em Niterói?

Sara: Eu boto eles numa creche aqui perto, ué.

Adalberto: Sara, você não pode meter os pés pelas mãos assim. As crianças já estavam acostumadas. Eles podem não se adaptar à mudança e isso pode trazer sérios problemas. Fora o trauma da separação dos pais, que com certeza vai afetar o psicológico deles. Depois, tem pai que não entende, porque o filho entrou pelo caminho das drogas, tá roubando, não quer trabalhar, só pensa em dormir, vive deprimido, chorando por qualquer besteira. É isso que você quer para os seus filhos?

Sara: Mas tem muita criança que não cresce assim.

Adalberto: É mas você tem trigêmeos. A probabilidade de isso acontecer, pra você, é multiplicada por três.

Sara: Ai, Jesus! Eu tô arrependida. O que eu faço, primo, me ajuda!

Adalberto: Volta pra casa agora!

Sara: Jamais!

Adalberto Que jamais o quê, tá maluca? Tô ligando pro Oswaldo pra resolver isso agora. Alô, Oswaldo, que palhaçada é essa de ficar chamando a minha prima de gorda? Olha só, cara, eu não tenho nada a ver com a vida de vocês dois, mas eu não posso receber a Sara na minha casa, porque estou com visitas, que vão ficar aqui um mês. E como você sabe bem, a Sara não trabalha e não tem renda. Ela vai ter que morar na rua, porque as outras primas também estão com visitas em casa e os meus pais idem. Tive que deixar a pobre coitada num abrigo, que recebe cracudo revoltado com a vida. Sabe aquela gente desacreditada, que quer matar o primeiro que aparece na frente? É com esse tipo de gente, que ela tá morando agora. Ah, você quer pedir desculpas pra ela? De joelhos? De joelhos, sim. Tem que ser de joelhos pra ela aceitar voltar pra casa. Então, vem aqui em casa agora. É o tempo de eu buscá-la nesse abrigo. Ah, quando chegar, interfona que ela desce. Aqui em casa tá cheio de gente, não cabe mais ninguém. Até já.

Sara: Primo, você é doido!

Adalberto: Resolvi seu problema. Ele disse que tá arrependido, que nunca mais vai fazer isso e que vai te pedir desculpas de joelhos. Tá bom assim?

Sara: Te amo. Me abraça. Brigada, tá?

Adalberto: De nada, amore. Agora, deixa eu ir lá, que eu tô atrasado pro aniversário de um amigo meu. Beijo, se cuida. E não faça mais isso!

Senão, sou eu que me ferro!

domingo, 17 de novembro de 2013

Ane trabalha, trabalha, trabalha, mas, no final, é demitida por um peguete metido a malandro

A Ane chegou hoje de viagem. Ela tinha ido pra Floripa com um cliente da locadora de carros do pai dela. E a primeira coisa que fez, quando chegou ao Rio, foi vir pra minha casa. Chorar.

Adalberto: O que aconteceu? A viagem não foi boa?

Ane: Não, foi uma merda.

Adalberto: Por quê? Não foi legal lá com o Zulmenildo?

Ane: Foi péssimo. Ele só trabalhou.

Adalberto: Ah, mas isso você já sabia que ia acontecer. Ele foi pra lá pra um congresso de três dias. Você mesma me contou isso.

Ane: Eu sei. O problema é que eu fiquei trabalhando de assessora dele.

Adalberto: Como assim?

Ane: Eu passei a roupa dele, que amarrotou na mala; fazia massagem nas costas dele, quando ele chegava no hotel; cortei os cabelinhos do nariz e da orelha dele; trocava o curativo e botava pomada no joelho dele.

Adalberto: Ele se machucou lá?

Ane: Não. Caiu de moto há umas duas semanas, mas já tá tudo bem.

Adalberto: Ah, tá. Mas me conta. Você disse que estava num resort incrível, que a seleção dos Estados Unidos ou Japão vai ficar lá na época da Copa. O que tinha lá de bom?

Ane: Tudo o que você puder imaginar. Umas 30 piscinas. Piscina de água quente, água fria, com toboágua grande, pequeno, médio, com onda... Ah... Coisa de louco! Praia particular, campo de golfe, um monte de restaurante, sauna seca, a vapor, campo de futebol, quadra disso, daquilo, daquilo outro... Adal, tinha até boate lá dentro.

Adalberto: E você? Aproveitou?

Ane: Não.

Adalberto: Por quê? Onde você estava, enquanto o Zulmenildo estava no congresso?

Ane: Ué, transcrevendo os áudios das palestras, que ele participava. Meu ouvido tá que não aguenta mais aquele fone que entra, sabe? Se você encosta na minha orelha, eu sinto dor. Não consigo nem dormir de lado de tanta dor. Já tomei remédio, mas se não melhorar, tou pensando até em ir ao médico, primo.

Adalberto: Gente, que horror! Que viagem péssima foi essa?

Ane: Nem te conto, primo. Pior que nem sexo a gente fez direito.

Adalberto: Como assim?

Ane: A gente só transou um dia e, mesmo assim, muito mal, porque ele estava cansado.

Adalberto: E foi bom?

Ane: Basicão. Ele estava muito cansado. Nos outros dias, nem aguentou.

Adalberto: Mas e aí? E hoje, amanhã, sei lá... Quando vocês vão se encontrar de novo?

Ane: Nunca mais.

Adalberto: Por quê?

Ane: Ele disse que eu não sou a mulher que ele quer pra ele?

Adalberto: Não. Como assim? Ele te fez de escrava em Floripa e, depois, teve a cara de pau de dizer isso?

Ane: Pois é. Tou arrasada, primo. Me dá colo, ombro pra eu chorar, qualquer coisa.

Adalberto: Nada disso. Vou te dar cerveja. Vamos agora prum bar, afundar essa mágoa. E não vale dizer não.

Coitada da minha prima. Foi usada por um idiota metido a malandro. E, no final, foi demitida.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Sonho de consumo decepciona Lu

Ontem, a Lu foi a minha casa pra tentar conter a própria ansiedade.

Adalberto: Lu, são sete horas da manhã. Eu tenho que ir trabalhar.

Lu: Ah, mas você não vai mesmo. Eu não dormi a noite toda. Preciso de uma companhia, primo. Senão, eu não vou aguentar esperar até a noite.

Adalberto: Esse encontro com o Wendelano á tão importante assim?

Lu: Cara, o Wendelano já foi um dos meus sonhos de consumo da minha adolescência. Agora que ele se separou e tá voltando a morar no Rio, essa é a minha grande chance.

Adalberto: Um dos? Foram muitos?

Lu: Não sei. Uns 15, sei lá. Adal, isso não importa mais. Até porque eu não consigo mais ter olhos nem cabeça pra nenhum outro homem, além do Wendelano. Por quê?

Adalberto: Nada. Só curiosidade mesmo. Olha só, eu vou ter que ir pro trabalho mesmo, tá? Tem água na geladeira, miojo na dispensa e a televisão da sala não tá funcionando, porque eu ainda não paguei, mas no quarto você pode assistir TV aberta.

Lu: Adal, você não vai trabalhar.

Adalberto: Vou, sim.

Lu: Se você for, eu vou atrás e faço um escândalo na porta da tua firma.

O pior é que ela é capaz disso mesmo.

Adalberto: Que saco! Que inferno ter primas como vc, Ane, Marjorie e Sara, que acham que mandam em mim!

Lu: Mas a gente manda em você.

Adalberto: Não, vocês me manipulam. É diferente. Eu fico. Mas você vai ter que fazer um almoço bem gostoso pra mim.

Lu: Fechado.

Enquanto a Lu foi ao mercado comprar os ingredientes para o estrogonofe de camarão, eu liguei pro meu trabalho pra dizer que não iria, por causa de mais uma dor de barriga e, depois, voltei a dormir.

À tarde, depois de repetir três vezes a comida, tivemos uma conversa séria sobre a família do Wendelano.

Lu: Por que você tá me perguntando essas coisas?

Adalberto: Não foi você que disse que todo mundo na casa dele é louco?

Lu: Eles não são loucos.

Adalberto: Então, me explica por que a irmã dele se chama Rosemary, mas se apresenta pra todo mundo por Deise?

Lu: Eu já te expliquei que o nome dela sempre foi Deise. Só na hora de registrar, o pai do Wendelano estava bêbado e colocou o nome da amante na filha. Mas a mulher dele sabia da existência dessa amante e nunca deixou que ninguém chamasse a filha de Rosemary. Só de Deise.

Adalberto: E isso justifica ela ter colocado o nome de Maicolino e chamar de Rodrigo?

Lu: Ela é problemática, quis se vingar da vida mirando no próprio filho, coisa de gente que tem crise de identidade. Nunca foi Rosemary nem Deise...

Adalberto: Pra mim, ela é doida.

Lu: Motivos pra ser doido tem a irmã do Wendelano, que foi criada numa jaula. Mas ela deu motivos.

Adalberto: Como assim? Qual motivo?

Lu: Ela perdeu a virgindade com 12 anos. Isso é idade?

Adalberto: Lu, você não pode julgar a menina, mas a criação que ela teve. Você tem certeza que é nessa família que você vai se enfiar?

Lu: Eu nunca tive tanta certeza na minha vida. A gente vem se falando há dias por telefone. Ele quer mesmo uma coisa séria comigo. Tá me cheirando amor pra vida toda, Adal.

Adalberto: É sério isso?

Lu: É. Mas deixa eu me arrumar, porque eu tenho que sair em quatro horas.

Adalberto: Vai lá.

E não é que ela ainda saiu atrasada? Não entendo por que as mulheres demoram tanto pra botar uma roupa, pentear cabelo e passar maquiagem, se elas fazem isso há tanto tempo.

Lu: Tchau, primo.

Adalberto: Beijo.

E duas horas depois, ela me volta decepcionadíssima.

Lu: Quero me matar. Me joga da sua janela, por favor?

Adalberto: Depende. Por quê?

Lu: O Wendelano quis transar comigo vestido de mulher. Foi por isso que a mulher dele não quis mais ficar com ele.

Adalberto: É um fetiche estranho, né?

Lu: Muito. Ele diz que não consegue mais fazer sexo se não for assim. E eu gosto de homem, primo!

Adalberto: E agora?

Lu: Agora? Eu quero me matar, ué. Já te falei. A vida perdeu sentido pra mim.

Adalberto: Ah, Lu, para de show e vamos tomar uma chope lá na rua. Eu já imaginava que não tinha um que prestava nessa família.

Lu: Vamos. E eu vou dar mole pro primeiro garçom que aparecer na minha frente. Tô necessitada, subindo pelas paredes. Quero homem!

A Lu não tem mesmo papas na língua...