quarta-feira, 16 de julho de 2014

Bermuda jeans e camisa bege foram as responsáveis pela derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo

No dia que o Brasil foi humilhado pela Alemanha na  Copa do Mundo, eu pretendia ver o jogo com as minhas. Até então, tínhamos visto todos os jogos juntos, na casa da Ane, com a mesma roupa sem lavar e sentados no mesmo lugar.

Pra esse jogo, não tinha a menor condição de eu ir com a mesma roupa sem lavar. E eu só me dei conta no dia. O cheiro de cecê estava absurdo. Ninguém ia aguentar ficar do meu lado. Fui com uma bermuda jeans e uma camisa bege.

Ane: Adal, como assim?

Adalberto: A minha roupa estava impraticável, prima. Vocês não iam aguentar.

Ane: Não interessa, era o nosso pacto, a nossa roupa-amuleto.

Adalberto: Ah, gente, que besteira. Não vai ser por causa de uma roupa, que o Brasil vai perder.

Marjorie: Claro que vai. Vai pra casa agora trocar de roupa e volta devidamente vestido!

Adalberto: De jeito nenhum! Eu não vou sair do Humaitá pra ir pro recreio pra, depois, voltar pra cá. Gente, o litro da gasolina tá três reais, não pra dá jogar dinheiro fora.

Lu: Nossa, caro, né? Se agora tá assim, imagina na Copa!

Ane: Lu, a questão é que a gente já tá na Copa. E se ele não for trocar de roupa agora, imagina o que vai ser do jogo de hoje.

Adalberto: Gente, é sério que vocês não vão me deixar entrar? É isso mesmo?

Sara: Primo, eu não acho uma boa ideia você ficar aqui com essa camisa bege.

Ane: Gente, claro que não! Quando abri a porta e vi essa garoto de bege, eu fiquei bege!

Lu: Adal, vai-te embora!

Adalberto: Eu tô sendo expulso?

Marjorie: Lógico!

Adalberto: Não acredito nisso. Ane, a casa é sua, você decide. Posso ficar?

Ane: Claro que não. Tchau!

E bateu a porta na minha cara.

Adalberto: Olha só, isso não vai ficar assim! Eu não vou esquecer NUNCA essa falta de respeito de vocês.

E quando já ia pegar o elevador pra ir embora pra casa...

Adalberto: Ah, e tomara que esse jogo seja um fiasco, que o Brasil perca de lavada. Que tome uns sete gols e que vocês sofram muito com essa derrota. Que fiquem desidratadas de tanto chorar! E morram!

Fui assistir ao jogo em casa sozinho. Até o terceiro gol, não parei de andar de um lado pro outro da sala. A partir do quarto, comecei a chorar copiosamente. No sétimo, me caguei todo! Eu não podia ter esse poder! Não podia!

Quando o juiz apitou o fim do jogo, eu já estava com a faca na mão criando coragem pra me matar. Eu sabia que eu não iria fazer isso, mas eu precisava contar pras minhas primas que tinha tentado, pelo menos. Até que resolvi lembrar, que tinha desejado que elas se desidratassem de tanto chorar e morressem em seguida.

Liguei imediatamente pra casa da Ane. Ninguém atendia. Liguei de novo. Nada. Outra vez. nenhuma resposta.

Fui até à casa dela. Eu até tenho a chave da casa de todas as minhas primas, mas saí com tanta pressa que esqueci de levar. Perguntei pro porteiro se tinha alguém em casa, mas ele não sabia. Tinha acabado de render o outro porteiro. Subi correndo pelas escadas, mesmo sabendo que, se esperasse o elevador descer e, depois, subisse até o oitavo andar, seria mais rápido. No quinto andar, estava completamente esbaforido. Decidi parar e pegar o elevador. Quando ele chegou, estava cheio de gente. Não cabia nem metade do meu corpo. Esperei mais três vezes, e ele continuava subindo cheio. Voltei pro térreo pra pegar o elevador vazio e voltar a subir (pra descer, todo santo ajuda!). Deu certo!

Finalmente, no andar da casa da Ane, bati à porta mil vezes. E nada! Perdi todas as forças do corpo. Mal conseguia chorar. Não tinha nem fôlego pra arrombar a porta. Bem que queria. Mas achava que pra botar aquela porta pra baixo, só se fosse o Hulk. Nesse momento, corrigi o meu próprio pensamento e resolvi que pra botar aquela porta no chão, só mesmo o Podolski, o Klose, o Khedira. Ou qualquer outro jogador da Alemanha. Menos o Hulk!

As minhas primas estavam mortas! E eu era o responsável por isso! Chorei, chorei, chorei. Até que já não tinha mais lágrimas. Acho que já estava começando a ficar desidratado, quando desmaiei.

Acordei num quarto de hospital, com as minhas quatro primas em volta da minha maca.

Adalberto: O que você estão fazendo aqui? Onde eu tô? Quem sou eu?

Lu: Gente, ele não sabe nem mais quem é ele!

Adalberto: Não, quem sou eu, eu sei, sim. Estava brincando. Mas onde eu tô e o que vocês estão fazendo aqui eu, realmente, não sei.

Marjorie: Você tá num hospital, recebendo soro na veia, porque estava desidratado.

Ane: O médico disse que, se você perdesse mais água do corpo, poderia até morrer, primo.

Sara: Tadinho do meu Adalzinho!

Reparei que elas estavam com as camisas do Brasil e lembrei do jogo, do fiasco, da minha responsabilidade.

Adalberto: Vocês não estão com raiva de mim?

Lu: Claro.

Ane: Só um pouco.

Sara: Mas vai passar.

Marjorie: Fica bom logo, primo. Quando você sair, a gente te mata.

Adalberto: Brigado.

Era tudo o que eu podia dizer naquele momento.

sábado, 5 de julho de 2014

Marjorie desiste de formar a dupla Clamar e decide se relacionar com cavalos

Anteontem, enquanto eu me arrumava pra ir pro trabalho, a Marjorie ligou sete vezes para o meu celular. Ando sem paciência pra ela. Quem conhece a Marjorie sabe que ela não é de ficar chata, quando tá apaixonada por algum homem. O problema é que, agora, ela se apaixonou por uma mulher e tá mais chata do que menina de 12 anos com o primeiro namoradinho. Só fala de Clarinha, Clarinha, Clarinha...

Ontem, elas iam sair pela primeira vez juntas. A coisa deve ter sido boa. Até agora ela não me ligou...

Caramba, foi só eu falar, que o telefone toca. É ela.

Adalberto: Oi, Jojô.

Marjorie: Tudo bem, primo?

Adalberto: Tudo.

Marjorie: Tá fazendo o que de bom?

Adalberto: Cara, nada. Acho que vou cortar a minha unha do pé. Tá grande. 

Marjorie: Quer ajuda?

Adalberto: Pra quê? Pra cortar a minha unha? Não, né?

Marjorie: Eu corto pra você. Eu sei que você não gosta dessas coisas.

A Marjorie queria me encontrar pessoalmente pra falar alguma coisa. Ela jamais se ofereceria pra cortar a  minha unha, se não existisse um interesse por trás disso.

Adalberto: Vem, então. Aí, você aproveita e corta a da mão também, espreme uns cravos nas minhas costas, limpa o meu ouvido e lixa o meu pé. Tá com aquela crosta grossa, sabe? Eu devo ter crescido uns dois centímetros por causa disso.

Marjorie: Ai, que nojo, primo! Isso eu não vou fazer, não.

Fiz chantagem.

Adalberto: Então, deixa. Eu vou numa dessas clínicas do pé pra fazer uma limpeza. Só não vai dar pra você vir aqui, então. Eu devo demorar na rua. Vem na semana que vem.

Marjorie: Não, eu vou hoje, primo. Preciso falar com você.  Deixa que eu lixo o seu pé.

Adalberto: É? Tá bom.

Em 40 minutos, ela chegou na minha casa. Estava com uma cara de poucos amigos.

Marjorie: Oi.

Adalberto: Que cara é essa?

Marjorie: Ai, Adal, eu não tô bem.

Adalberto: O que foi?

Marjorie: A Clarinha.

Adalberto: Já sei: a noite foi ótima, você tá apaixonada e veio me contar que a Clarinha é a mulher da sua vida. Acertei?

Marjorie: Não. A gente nem chegou a ficar. Quando ela pegou na minha mão, no restaurante em que a gente foi jantar, eu senti nojo. Eu sei que é horrível falar isso, mas não tem nada a ver comigo. Eu não sei de onde eu tirei da cabeça essa coisa de que eu e a Clarinha poderíamos ter alguma coisa.

Adalberto: Eu sei! Da novela, do Big Brother. Hoje em dia, você liga a televisão, e tem alguma mulher pegando uma Clarinha. É a Marina, personagem da Tainá Müller, é a Vanessa, do BBB, é mais não sei quem... Virou moda ser mulher e pegar uma Clarinha. Você foi influenciada. Depois da Clanessa, da Clarina, você achou bonito criar a dupla Clamar. Eu estava achando isso um saco. Pronto, falei.

Marjorie: Ah, primo, eu estava meio carente, tinha acabado de ser sacaneada por aquele idiota, do Bairro de Fátima, que eu estava pegando. E a Clarinha apareceu nesse momento. Sendo carinhosa comigo, me dando apoio, elevando minha autoestima. Era tudo o que eu precisava naquele momento.

Adalberto: E agora?

Marjorie: Agora, ela não para de me ligar, já me mandou 300 mensagens, 500 WhatsApps, deixou sete recados na minha caixa de voz. Eu não aguento mais essa mulher, primo. Fora que, ontem, ela ficou de bico, quando o Marquinho, do colégio, me abraçou e me beijou daquele jeito exagerado dele.

Adalberto: Ele estava no restaurante também?

Marjorie: Estava. Coincidência, né? Continua doido. 

Adalberto: E a outra já com ciúme dele?

Marjorie: Nossa, uma cara de cachorro com fome, sabe? E depois que ele foi embora, ficou pagando geral pra mim, perguntando como eu deixo um homem me pegar pela cintura, ficar agarrado comigo na frente de todo mundo, me enchendo de beijo no rosto... Gente, o Marquinho é meu amigo. A gente tem intimidade.

Adalberto: Você já falou pra ela, que não vai rolar?

Marjorie: Primo, eu tô sem coragem de fazer isso. A Clarinha não vai aceitar, vai discutir comigo, vai dizer que eu a enganei. E hoje, eu não tô com saco pra isso. Quero curtir o meu sábado. Eu já me estresso de segunda a sexta. Hoje, eu não quero.

Adalberto: Então, deixa pra falar com ela na segunda. É bom que você vai estar tão enrolada na tua fábrica que nem vai poder dar ibope pro mimimi dela.

Marjorie: Pra onde a gente vai, então?

Adalberto: Bora encher a cara num pé sujo?

Marjorie: Boa, primo! Quero beber até cair. Estava até pensando em sair pra dançar, mas prefiro beber mesmo. Até ficar engraçada.

E ela conseguiu. Umas duas horas depois que nós chegamos, quando a Marjorie já estava pra lá de Bagdá,  a Clarinha apareceu por lá com uma amiga. Parecia triste. Com certeza, ia fazer o ouvido da pobre coitada de penico, e desabafar as mágoas com a minha prima.

A Marjorie soube aproveitar a ocasião. Levantou, foi até elas e fez a louca.

Marjorie: Como assim? É isso mesmo que eu tô vendo?

Clarinha: O quê? A Marlene é minha amiga.

Marjorie: Eu não quero saber! Você me mandou 800 mensagens, dizendo que não ia fazer nada, que ia ficar em casa, porque estava triste, porque eu não te respondia. E na primeira oportunidade você, com a primeira que te aparece? 

Clarinha: Mas eu...

Marjorie: Eu não quero saber! Olha, eu não te respondi, porque eu estava em conflito comigo mesma. Você sabe que eu nunca fiquei com uma mulher. Era uma decisão muito difícil pra mim. Mas sabe de uma coisa? Eu não quero mais você. Toda a confiança que eu tinha em você acabou. Fica com ela. Sério mesmo. Pega ela, se amassa nela e leva pra casa, meu bem. Porque dessa toca aqui, não sai mais coelho. 

Por uma coincidência assustadora, o Marquinho chegou ao local com um grupo de amigos. E a Marjorie fez a louca.

Marjorie: Não fala mais com os pobres, não, Marquinho? Vem cá me dar um beijo.

E tascou o maior beijo na boca do Marquinho. E Clarinha estava chorando, tadinha. Não sabia se era pelo esporro que levou ou por ciúme da Marjorie com o Marquinho. Fiquei com pena.

Marjorie: Vamos, Adal!

Adalberto: Peraí, a gente tem que pagara  conta.

Marjorie: Depois, a gente volta aqui pra pagar. A gente vem sempre aqui, todo mundo aqui conhece a gente. Não é possível que a gente não possa pagar outro dia. Vamos! Eu tô com pressa.

Fomos pra minha casa e apagamos. No dia seguinte, era o Marquinho que já tinha ligado 15 vezes, mandado 250 mensagens e 457 WhatsApps

Adalberto: Que merda, hein. Trocou seis por meia-dúzia.

Marjorie: Meia-dúzia, não, né? O Marquinho, pelo menos, tem o que eu gosto. Pena que ele é muito grude, tipo mulher, sabe? Por isso que tá sempre sozinho. Mulher nenhuma aguenta uma pessoa que seja mais chata do que ela. Ainda mais quando é um homem. Ah, na boa, eu não vou responder o Marquinho. Cansei do ser humano, primo. Vou me relacionar com cavalos. Eles, sim, vão me tratar do jeito que eu gosto.

Apoiada!

domingo, 29 de junho de 2014

O amor nos tempos da Copa ou Viva o futebol!

Combinei de ir com a Ane ao primeiro jogo da Copa do Mundo no Maracanã. Ela ficou horas numa fila, em que conheceu um carinha que é idêntico ao David Luiz. O rapaz foi o passatempo durante as nove horas de espera pra comprar o ingresso.

No dia do jogo, ela parecia cabisbaixa. Mas eu tentei levantar o astral.

Adalberto: Que bom que deu tudo certo, né?

Ane: Tudo certo pra você, né?

Adalberto: Não. Pra nós dois. Você também vai ao Maracanã.

Ane: Mas quem disse que eu faço questão disso?

Adalberto: Ane, é Copa do Mundo no nosso país! Você ia querer deixar isso passar em branco

Ane: Ai, Adal, ainda tou meio arrasada com o sumiço da David Luiz.

Adalberto: Esquece esse menino! Isso foi um amor de fila.

Bizarro isso. Já tinha ouvido falar em amor de carnaval, de verão... Amor de fila só uma prima minha mesmo pra estrear.

Ane: Mas eu me deixei levar pelo sentimento. Eu nunca imaginei que, a chegada à bilheteria, seria o fim.

Adalberto: Ai, que papo mais novela das oito. Vamos parar! Quero você animada pro jogo.

A partida foi entre Argentina e Bósnia, e nós sequer sabíamos disso. Chegando no Maracanã, fomos surpreendidos. O nosso ingresso não passava na catraca eletrônica. E quanto mais eu tentava, mais eu me irritava. Até que gritei.

Adalberto: Porra, Ane, em qual Paraguai você comprou essa bosta desse ingresso?! Essa bosta só pode ser falsificada.

Intrometido: Mira, yo soy de Paraguai. No me gusta que hable así de mi país.

Adalberto: E daí? Eu não te perguntei nada! É do Paraguai mas entende português?

David Luiz falsificado: Eu traduzi pra ele o que você disse, seu babaca.

Depois que falou, o rapaz se assustou ao ver a Ane.

Ane: Olha, o David Luiz falsificado foi solidário com o amiguinho do país, em que tudo que se vende é falsificado. E se eu contar aqui, pra todo mundo ouvir, que você também é um frouxo, que não dá no couro. O amiguinho vai defender?

David Luiz falsificado: Cala a boca.

Intrometido: Cállete!

Ane: É assim, né? Um amiguinho defende o outro. Ou será que um é namoradinho do outro? Deve ser, né? 

Adalberto: Ane... Menos...

Ane: Legal saber que você me usou pra furar fila, pra comprar ingresso pro teu macho.

Nesse momento, o David Luiz falsificado deu um tapa em um lado do rosto da Ane, e o Intrometido,no outro. Um segurança, imediatamente, foi separar a briga que se iniciava. E, enquanto os casalzinho era levado para fora, eu peguei os ingressos deles, que caíram no chão.

Adalberto: Vamos entrar?

Ane: Ué, passou? 

Adalberto: Depois te explico.

O ingresso dos meninos era VIP. Ficamos num lugar incrível do Maracanã, com tudo liberado.

Adalberto: Gostou de ter vindo?

Ane: Adorei!

Adalberto: Já esqueceu o David Luiz falsificado?

Ane: Há séculos! Já troquei até telefone com o Júlio César do Paraná

Adalberto: Mais um sósia de jogador da seleção. Isso não termina bem.

Ane: Para de ser pessimista, garoto! A nossa história vai ter um final feliz. Ele é o cara. 

Adalberto: E por que ele não tá aqui com a gente?

Ane: A ex-namorada dele, com quem ele terminou há uma semana, tá aqui. Eles compraram os ingressos, quando ainda estavam juntos. Ele prefere não ficar comigo na frente dela pra evitar escândalo. Ele tem pavor de gente escandalosa.

Tadinho. Tá mal parado, então.

Adalberto: Quer uma boa notícia, então? Os ingressos que você comprou não eram pro Maracanã, sua bisonha. Mas pra Arena da Baixada, em Curitiba. Se a sua história com o Júlio César do Paraná tiver mesmo um final feliz, convida ele pra ir com você Irã e Nigéria.

Ane: Ai, que tudo! Viu? Eu não comprei os ingressos errado à toa. Isso não é coincidência. Isso já estava escrito. Esse homem vai ser meu.

E com alguns litros de álcool já no sangue, ela foi até o Júlio César do Paraná e toucou-lhe um beijaço. E dessa vez, o tapa na cara foi da ex-namorada dele, que, na verdade, até aquela altura era atual.

Na nova confusão, eu não consegui tirar proveito. Talvez porque também estava bêbado.

No caminho para casa, tive que aturar a choradeira da Ane.

Adalberto: Não fica assim. Esses caras não prestam. Já, já você encontra alguém legal. A Copa só tá começando.

Eu não sei, exatamente, o que eu quis dizer com esse meu comentário. Mas ele acionou algum sensor na Ane, que a deixou pensativa e, segundo depois, já não derramava mais lágrima alguma.

Ane: Você tá certo, primo. Homem nenhum vale o meu choro. Mas, me diz uma coisa, quando é mesmo o jogo da Nigéria com o Irã?

E viva o futebol!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Coincidências da vida deixam Ane sem palavras

Hoje, quando eu estava saindo de casa pra ir trabalhar, a Ane me ligou.

Ane: Primo, para tudo!

Adalberto: O que foi, Ane?

Ane: Preciso da sua ajuda. É um caso de vida ou morte.

Essa não! Os casos de vida ou morte das minhas primas NUNCA são casos de vida ou morte.

Adalberto: Fala.

Ane: Sabe o Almiríade?

Adalberto: Não.

Ane: Aquele cara que eu conheci na semana passada e fiquei apaixonada.

Adalberto: O do cabelo do nariz grande?

Ane: Isso. Mas eu cortei no terceiro dia que a gente ficou.

Adalberto: Que bom, era nojento.

Ane: É. Mas antes não tivesse me preocupado com isso.

Adalberto: Por quê?

Ane: Ele estava com a Jane ontem.

Adalberto: A Jane Furacão?

Ane: Essa galinha mesma. Passeando na Praia de Copacabana. Eu preciso ir lá em Irajá agora falar com ela que o homem é meu.

Adalberto: Mas ele não é seu. Vocês só estão ficando. De mais a mais, ele conhece a Jane há mais tempo do que você.

Ane: Mas eu peguei primeiro.

Adalberto: Eu não vou deixar de ir trabalhar pra ir te levar em Irajá, né?

Ane: Vai, sim. Senão, eu vou postar no Facebook aquele seu vídeo fazendo o quadradinho de oito.

Eu nunca mais bebo na frente da Ane!

Adalberto: Eu te levo. Mas você me promete que não vai fazer barraco com a menina?

Ane: Prometo.

Tenho certeza que ela cruzou os dedos escondido. Ela sempre faz isso.

Inventei mais uma dor de barriga pra faltar o trabalho. Levei uma hora pra buscar a Ane e duas pra chegar à casa da Jane, que me recebeu com um abraço forte.

Jane: Que bom ver vocês!

Ane: Sua falsa! Você tá saindo com o MEU homem.

Adalberto: Ane, por favor.

Ane: Ane, por favor, não! Me segura, senão eu vou arrebentar a cara dessa vadia!

Me senti ridículo segurando uma louca aos berros. A Jane fez a fina, fingiu que não era com ela, bateu o portão na nossa cara e deixou a Ane falando sozinha.

Adalberto: Tá bom pra você?

Ane: Eu quero matar essa vadia! Vou tacar uma pedra na casa dela.

E quando ela ia tacar uma pedra na janela da casa da Jane, foi abordada por uma cópia da sua "rival" com o Almiríade.

Iane: Ei, vai tacar pedra onde, hein?

Ane: Jane?

Adalberto: Você se teletransportou?

Iane: Não, eu sou Iane, irmã gêmea da Jane.

Ane e Adalberto: A Jane não tem irmã gêmea.

Iane: Tem, sim. Eu fui roubada na maternidade. Uma louca colocou um bebê morto no meu lugar e me levou pro Acre. Lá, eu passei fome, fiz trabalho escravo pra Nike dos três aos nove anos, vi uma irmã de criação ser estuprada, minha mãe assassinada, meu pai se suicidando, fui estuprada, engravidei, perdi, fui estuprada de novo, engravidei de novo, eram gêmeos, perdi um, o outro nasceu sem os membros, foi comido por um pitbull, eu me joguei de uma ponte, não morri, fui a uma cartomante, ela disse que eu tinha família no Rio, eu vim pra cá sem eira nem beira, o avião caiu no mar, só eu não morri, fui nadando até à praia, o Almiríade me viu caída na areia, achou que era a Jane, me levou pro hospital desacordada e, quando eu acordei, eu disse que tinha uma irmã gêmea no Rio e ele me trouxe até a Jane, a gente se apaixonou e, ontem, ele me levou à Praia de Copacabana, onde ele me encontrou caída pra pedir a minha mão em casamento.

Ane: Ah, tá.

Foi tudo o que Ane pôde dizer. Eu me mantive calado. A história da Iane com o Almiríade é coisa de filme. É ela que merece ser a nova cabeleireira do nariz dele.

Iane: Eu tou muito feliz.

Adalberto: Eu imagino.

Ane: Parabéns pra vocês.

Almiríade: Muito obrigado.

Adalberto: Tchau, gente. Que vocês sejam felizes.

E voltamos pra casa calados. Fiquei refletindo sobre as coincidências na vida, que, definitivamente, não devem existir. E a Ane dormiu até chegar em casa.

terça-feira, 25 de março de 2014

Plano infalível livra as primas de prostituição na Crimeia

Eu estava enchendo a caral, na Lapa, depois de uma sexta-feira de tédio infinito no trabalho, quando uns gringos branquelos vieram na minha direção. Eles falavam inglês. E eu, quando bebo, falo todas as línguas. Eu não sabia exatamente o que eles estavam perguntando. Respondi "yes" pra tudo.

No dia seguinte, apareceram cedo na minha casa para me levar para tirar documentação de viagem. No caminho, descobri que eu estava sendo contratado por três meses pra gerenciar as garotas de programa brasileiras, que foram contratadas para atender aos soldados das tropas russas na Crimeia. No começo, fiquei assustado, mas, quando eles me falaram quanto me pagariam, achei que não custava nada pedir licença no meu trabalho inútil pra ir ali na Ucrânia, ups Rússia, ficar rico.

Dois dias antes de viajar, fiz um chope de despedida com as primas. É óbvio que não contei a verdade para elas. Disse que iria fazer um intercâmbio cultural nos Estados Unidos.

Lu: A gente vai morrer de saudade de você, seu cachorro.

Marjorie: É Adal, três meses é muita coisa.

Adalberto: Vai passar rápido. E outra: eu vou voltar com muito dinheiro pra bancar nossos chopes.

Ane: Como assim dinheiro? Você não tá indo lá pra estudar, garoto?

Quase que eu me entrego!

Adalberto: É, eu estou... Mas sei lá, né? Vai que role algum biquinho de garçom em algum restaurante... Eu não vou dispensar.

Sara: Ai, primo, aproveita o tempo vago pra curtir. Vai nos parques Disney, vai conhecer Nova York, roda tudo por lá, Adal.

Lu: Olha, eu fiz a minha listinha.

Ane: Eu também.

Adalberto: Gente, não dá pra trazer tudo o que vocês querem, não! E eu? Também quero bugiganga americana.

Ane: Mas eu não quero bugiganga. Eu quero roupa, maquiagem, perfume, relógio...

Adalberto: Bugiganga americana, ué.

Lu: Ah, garoto, cala a boca!

No dia seguinte, enquanto eu gastava os tubos, comprando roupas de frio para sobreviver na Crimeia, minha primas estava indo pro batizado do filho do Edemesvaldo, o novo peguete da Lu, que mora em Japeri.

Na Avenida Brasil, o carro da Marjorie, que era a motorista do dia, enguiçou perto de um posto, que parecia funcionar precariamente, onde o quarteto foi pedir ajuda. Elas foram confundidas com umas garotas de programa e foram sequestradas.

Acordaram num quarto sujo, com outra brasileiras... na Crimeia!

Marjorie: Como assim eu tou na Crimeira?

Mulher traficada 1: Tá. Você foi traficada, que nem todo mundo que tá aqui.

Mulher traficada 2: E detalhe: vai ter que trabalhar como garota de programa.

Mulher traficada 3: Que nem todo mundo que tá aqui.

Ane: Gente, eu não tou acreditando. Isso é coisa de novela! Socorro! Alguém me tira daqui!

Lu: Eu vou arrombar aquela porta.

E tomei um chute no rosto da Lu, quando ela foi tentar arrombar a porta.

Adalberto: Ai!

Lu: Adalberto! O que você está fazendo aqui?

Adalberto: Eu?

Marjorie: Primo, você tá metido nisso?

Adalberto: Eu?

Ane: Adal, você acha que a gente não ia descobrir?

Adalberto: Oi?

Sara: Você não tem mesmo vergonha na cara, né?

Adalberto: Hã?

Sara: Não, minha vó! Adal, eu sou casada! O Oswaldo vai te matar. E me matar depois. E aí, eu vou matar você lá no céu.

Adalberto: Então, eu vou pro inferno.

Marjorie: Adal, por que você mentiu pra gente?

Adalberto: Eu não queria falar pra vocês que eu estava vindo gerenciar prostitutas brasileiras na Crimeia.

Só aí eu realizei que havia algo de errado.

Adalberto: Ué, o que vocês estão fazendo aqui? Vocês são...

Lu: Claro que não, garoto! Acha que eu tenho cara de prostituta?

Pior que sim.

Adalberto: Claro que não, Lu.

Marjorie: A gente foi sequestrada, primo.

Sara: Tira a gente daqui, por favor!

Ane: Eu preciso encontrar com o Edemesvaldo. Ele deve estar preocupado comigo.

Adalberto: Eu vou dar um jeito.

Fui contar pro comandante, que estava no bar daquele lugar, que chegaram quatro prostitutas, que fizeram bacanal com o Putin na última visita que ele fez ao Brasil. Ele quis encontrar com elas na hora. Mas na sua casa.

Eu conduzi as quatro num carro separado. No caminho, o plano imbatível. Parecia uma daquelas nossas brincadeiras de infância.

Adalberto: Eu tou adorando essa aventura.

Marjorie: Primo, isso é coisa séria, a gente pode morrer, se não der certo.

Eu não tinha pensado nisso.

Quinze minutos depois, elas já estava no avião do comandante se fingindo de retardadas. Eu já tinha avisado ao piloto, que levaríamos umas prostitutas, com uma doença grave e contagiosa de volta pro Brasil.

No caminho, ele recebeu um chamado e descobriu que era tudo mentira. Mas já era tarde. Com um cortador de una cego, o ameacei de morte. E convenci.

No aeroporto, no Brasil, coincidentemente encontramos com o Oswaldo, que voltava de uma viagem a trabalho de Florianópolis. Ele não entendeu nossas caras de aflitos.

Adalberto: A gente foi passar o fim de semana em São Paulo. Foi ótimo o passeio. Aliás, eu não gostei, não. Não gosto de São Paulo. Essas meninas que adoraram. Não foi, primas?

Sara: Foi legal. Mas eu estava morrendo de saudade de você, amor.

Marjorie: Vamos tomar um chope num barzinho pra desestressar.

Oswaldo: Ué, não foi legal o passeio?

Ane: O passeio foi. Mas a viagem de avião foi bem estressante. Muita criança chorando.

No bar, fomos atendidos por um garçom russo. Ouvi a Lu cochichando com a Sara:

Lu: Será que el não é um espião?

Sara: Meu Deus! Gente, eu tou meio cansada, acho que quero ir pra casa.

Marjorie: Por que a gente não compra cerveja naquele posto de gasolina e bebe lá na sua casa?

Sara: Lá em casa tem cerveja. Não precisa passar no posto de gasolina, não. Pelo menos hoje.

Bebi tanto que, no meio da noite, comecei a fingir que falava russo. Foi quando acabou a cerveja, a graça e a diversão.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Ane perde o amor de (quase) carnaval

Faltando dois dias para eu viajar para passar o carnaval na Bahia, a Ane apareceu inconsolável na minha casa. Eu estava arrumando as malas na hora que ela chegou.

Ane: Primo! Você não vai mais para lugar algum!

Adalberto: Como assim? Tá louca? Veveta, Cladinha e Bell já estão lá me esperando. Os abadás foram muito caros.

Ane: Mas eu quero me matar.

Adalberto: Terminou com quem agora, hein?

Ane: Com o Zilclêmin.

Adalberto: Sabia que tinha homem no meio.

Ane: Mas eu achava que ele era o homem da minha vida.

Adalberto: Você sempre acha isso.

Ane: Mas com ele era diferente. Eu achava de verdade.

Adalberto: Tá bom...

Ane: Ele me trocou por uma passista de escola de samba.

Adalberto: Jura?

Ane: Ele adorava ver a menina sambar. E eu nem desconfiava nada. A menina é menor de idade, achei que tinha maldade da parte dele. Nem da parte dela. Mas fui fuzilada pelas costas.

Adalberto: Pelo que me parece, foi pela frente mesmo. E só você não percebia.

Ane: Sei lá. O que eu sei é eu não tenho cara de pisar mais naquela quadra de escola de samba.

Adalberto: Por quê?

Ane: Porque eu tou me sentindo um lixo.

Adalberto: Quando é o próximo ensaio lá?

Ane: Hoje. 

Adalberto: Vamos?

Ane: De jeito nenhum. Sabe, no fundo, no fundo, acho que é melhor assim. Ele não andava com boa gente. Mas eu amava aquele desgraçado!

Adalberto: Anita, não chora. Assim, você parte o meu coração.

Faço de tudo pra acabar com o sofrimento das minhas primas. TUDO mesmo.

Dei um copo de água, cheio de calmante pra Ane, que dormiu logo em seguida, e fui agir.

Cheguei em casa na hora do Jornal Nacional.

Adalberto: Ane, acorda, olha isso.

O jornal transmitia, ao vivo, a Operação Pedófilo do Samba, que, além de prender o Zilclêmin, apreendia todas as fotos de crianças passistas nuas, que ele tinha feito.

Ane: Esse cara é imundo! Que nojo dele!

Adalberto: Podre, né?

Ane: Ainda bem que esse cara não faz mais parte da minha vida. Olha como Deus é bom! Tá me fazendo ver quem ele é.

Deus, né...

Adalberto: A mãe da menina, que ele tá ficando, estava na delegacia, esperando ele chegar. Estava furiosa. Precisava ver...

Ane: Ué, você viu?

Adalberto: Eu? Eu, não. Eu disse que a mãe da menina devia estar lá. Mas sei lá. Se ela tá lá ou não, só Deus sabe.

Amém!

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Árvore de Natal acaba com o programa de sexta

Ontem, saí do trabalho morto e fui direto pra casa da Sara. Ela disse que precisava de mim pra resolver um caso de vida ou morte.

Eu sabia que não devia ser nada de vida ou morte, mas com certeza era uma besteira de relevância para ela.

Sara: Oi, meu primo lindo!

Adalberto: Pede logo, Sara, eu tou com pressa.

Sara: A árvore de Natal.

Adalberto: O que é que tem?

Sara: Me ajuda a desmontar? O Oswaldo tá uma pilha comigo, por causa disso.

Adalberto: E por que ele não desmonta?

Sara: Ah, você sabe como ele é, né? Ele não gosta dessas coisas.

Adalberto: Então somos iguais. Também não gosto dessas coisas.

Sara: Primo, me ajuda, por favor.

Adalberto: Você sabia que o data certa de desmontar uma árvore de Natal é no Dia de Reis?

Sara: Eu sei. Mas eu sempre confundo o Dia de Reis. Nunca sei se é no dia seis ou vinte e seis.

Adalberto: Aí, você leva vinte dias pra tirar essa dúvida e, mesmo assim, não faz nada. É isso mesmo?

Sara: Ai, primo, você sabe como é a minha vida, né?

Adalberto: Sei. Você fica o dia inteiro em casa, fazendo porra nenhuma com de três crianças.

Sara: Você fala porque não tem trigêmeos.

Graças a Deus!

Adalberto: Antes dos trigêmeos você já reclamava de tempo, Sara, não mete essa!

Sara: Primo, eu não vou discutir comigo? Você vai me ajudar a salvar o meu casamento ou não?

Queria muito responder um "não", berrando na cara dela. Mas não consigo. Sou um fraco.

Adalberto: Sim.

Sara: Por isso que eu te amo.

Adalberto: Falsa. Vamos logo, porque amanhã é sexta-feira, e eu tenho uma festa pra ir. Tenho que dormir cedo pra ir trabalhar bem e, ainda, aguentar até as tantas da madruga na festa.

Sonho meu. Saí da casa da Sara às três da madruga. A árvore de Natal dela tinha mais enfeite do comida na dispensa da minha casa. Fora que ela é alta, e eu precisei subir numa escada pra conseguir desmontar.

Minha coluna ficou completamente torta. Fui pra casa morrendo de dor... E resumindo: não aguentei ir trabalhar hoje e, como a dor persiste, não vou à festa mais tarde.

O pior é ligar a TV por assinatura e ver que tá passando um filme de Natal. Será que eles estão de sacanagem comigo?