quarta-feira, 17 de junho de 2015

Minha experiência com a Arnold Classic: três semanas internado num hospital

Acabei de entrar em casa. E essa é uma das sensações mais felizes da minha vida. Nunca imaginei que, entrar dentro da minha própria casa, fosse me provocar tamanha emoção. Mas, depois de três semanas internado no Barra D'Or, o sentimento não poderia ser outro.

Se eu tivesse como voltar no tempo e mudar o rumo dessa história, eu não tentaria curar uma dor de cotovelo da Marjorie, quando fui buscá-la no aeroporto, no dia que ela terminou com o Felicianderson:

Adalberto: Não chora, Jojô.

Marjorie: Eu acreditei quando ele disse que me amava.

Adalberto: Mas ele podia estar falando a verdade. O problema foi ele ter se apaixonado pelo personal trainer. Mas eu acho que, se esse cara não aparecesse na vida dele agora, o teu sofrimento só ia ser adiado pra daqui a, no máximo, uns 15 anos, quando você vai estar velha, pelancuda e com um monte de filho.

Marjorie: Por que, primo?

Adalberto: Porque ele é gay e não sabia. Uma hora, ele ia descobrir.

Marjorie: Mas podia ser antes de eu enjoar dele, né?

Adalberto: Ah, então, você não amava o Felicianderson também.

Marjorie: Ah, mas estava curtindo.

Adalberto: Engole o choro agora!

Encostei o carro em frente ao primeiro bar que vi na minha frente e dei uma ordem a ela:

Adalberto: Compra uma garrafa de 51. Vou te ajudar a sair dessa.

E enquanto eu ia com a farinha, ela vinha com o bolo. Ou melhor, com um fortão de mais ou menos uns dois metros de altura.

Marjorie: Adal, ele não deixou eu comprar a 51.

Adalberto: Como assim? Quem é ele?

Flavíssimo: Prazer, Flavíssimo.

E essa era a primeira pessoa, que conheci na minha vida, que tem o nome no superlativo.

Adalberto: Prazer, Adalberto.

O aperto de mão dele foi apertadíssimo. Tudo o que o Flavíssimo fazia era no superlativo.

Marjorie: Adal, ele vai com a gente... Pra sua casa.

Adalberto: Oi?

Marjorie: Ele é fisiculturista, veio competir no Arnold Classic. Estava perdido, pedindo informação no bar. O amigo que ia dividir hotel com ele deixou ele na pista, tá com o telefone desligado, é mole?

Adalberto: E eu com isso?

Bem, eu tive que entubar essa. E, no meio do caminho, quando um carro me deu uma cortada, ele colocou quase o corpo inteiro pra fora da janela e mostrou a que veio.

Flavíssimo: Ô, mermão, tá a fim de morrer?

Marjorie: Flavíssimo, cuidado!

Adalberto: Deixa pra lá, querido. Trânsito aqui no Rio é assim mesmo.

Flavíssimo: É assim porque vocês são um bando de conformados! Se não der porrada num cara desses, ele nunca vai aprender.

Eu e Marjorie ficamos calados.

Flavíssimo: Foi mal, gente. Essas coisas já me irritam, e eu ainda tô numa dieta frenética. Aí, já viu, né? Dá vontade de quebrar tudo.

Marjorie: Te entendo.

Flavíssimo: Então, me dá um beijo. Anda, quer apanhar? Tô brincando, eu não sou um cara violento, não.

Quando cheguei na porta do meu prédio, fui parado pelo segurança.

Segurança: O senhor tá sem o tag do estacionamento.

Adalberto: Putz, esqueci no carro da minha irmã. O meu carro estava consertando, e eu usei o carro dela. Pego mais tarde, pode ser?

Segurança: Infelizmente, não posso deixar o senhor entrar.

Flavíssimo: Como é que é?

Segurança: Eu não vou poder deixar ele entrar sem o tag do estacionamento. Foi isso que eu disse.

Adalberto: Flavíssimo, por favor. Tá tudo bem, eu vou estacionar aqui fora mesmo.

Flavíssimo: Tudo bem? Eu vou mostrar pra ele como é que fica tudo bem.

E com aqueles braços do tamanho das minha coxas, ele quebrou a cancela do meu prédio, pegou o segurança pelo colarinho e me obrigou a entrar com o carro.

Adalberto: Marjorie, esse homem não vai ficar na minha casa.

Marjorie: Calma, Adal. Entra com o carro. Lá dentro eu vou resolver isso.

Adalberto: Ele vai pagar o conserto da cancela.

Marjorie: Você vai ter coragem de falar isso pra ele.

Adalberto: Putz, tem isso ainda... Deixa que eu pago, tá muito cedo pra morrer.

Marjorie: Eu pago, primo.

Dentro da minha própria casa, eu agia pisando em ovos:

Adalberto: Flavíssimo, você quer tentar ligar pro teu amigo do meu celular? Quem sabe não é o teu aparelho que não tá funcionando direito aqui no Rio...

Flavíssimo: Tá maluco? Comprei esse aparelho tem menos de um mês.

Adalberto: É, não deve ser isso, me perdoa.

Marjorie: Você não quer tomar banho?

Flavíssimo: Tô fedendo, por acaso?

Marjorie: Não, mas você veio do Rio Grande do Sul de ônibus! Foram horas de viagem.

Flavíssimo: E daí? O ônibus tem ar-condicionado. Tá me chamando de porco? Tá? Responde!

Adalberto: Flavíssimo, não liga, não. A Marjorie tem essa mania de limpeza. Ela também vive me mandando tomar banho.

Flavíssimo: Tem o que pra comer?

Adalberto: Então, uma outra prima nossa tá trazendo uma lasanha de quatro queijos.

Flavíssimo: Tá maluco? Ninguém aqui vai comer lasanha na minha frente! Eu tô de dieta, vou competir amanhã! Ou manda ela trazer batata doce com frango grelhado ou manda ela voltar pra casa e ficar uma baleia sozinha.

Olhei pra Marjorie com cara de cu.

Marjorie: Eu ligo pra ela, Adal.

Nessa hora, a campainha tocou. Era a Lu com a lasanha.

Adalberto: Lu, é melhor você voltar.

Lu: Como assim?

Adalberto: Você não vai poder entrar aqui em casa com essa lasanha.

Lu: Tá maluco? Eu não vim de Del Castilho, de ônibus, carregando esse peso, pra ter que voltar. Não sou palhaça!

Flávíssimo: Nem eu!

Lu: Quem é idiota?

Flavíssimo: Você vai ver quem é o idiota, sua vagabunda!

Quando ele voou pra cima da Lu, consegui me meter na frente. E livrei a minha prima do maior espancamento que ela poderia ter tomado na vida. Em compensação, fui parar na emergência do Barra D'Or.

O bom de ter voltado pra casa, depois de três semanas internado, foi os mimos que recebi das primas:

Ane: Trouxe um saco de Serenata de Amor pra você!

Adalberto: Oba!

Sara: Eu fiz o Oswaldo ir tarde da noite comprar morango. Fiz com creme de leite.

Adalberto: Hummm...

Marjorie: Eu trouxe o dinheiro da cancela. E um cartão. Desculpa, primo!

Adalberto: Você não tem que me pedir desculpa. Ah, tem, sim! Não vou fazer média com você.

Lu: E eu trouxe lasanha aos quatro queijos!

Sara: E pelo cheiro, tá saborosíssima.

Adalberto: Saborosíssima? Assim, no superlativo? Quero não...

Olhei pra cara da Marjorie e nunca mais paramos de rir.

sábado, 4 de abril de 2015

Branco e dourado ou azul e preto? ou O mundo entra em guerra, por causa do vestido da Sara

No domingo passado, tudo o que eu queria era dormir até segunda. Mas a Sara arruinou o meu projeto logo pela manhã, quando começou a ligar incessantemente para o meu celular. Só atendi na vigésima quinta vez que ela me ligou, porque fiquei preocupado. Pensei logo em besteira.

Sara: Adal, eu quero matar o Oswaldo.

Adalberto: Você me ligou só pra falar isso?

Sara: Primo, é sério. Você precisa vir aqui em casa agora pra me salvar.

Adalberto: Ah, eu? Pede pro Oswaldo. Ele casou com você só pros bons momentos? Não! Eu estava na igreja, e ouvi ele dizendo que era na alegria e na tristeza. Cobra dele aí.

Sara: Eu não estou disposta a olhar na cara do Oswaldo.

Adalberto: E eu não estou disposto a levantar da minha cama. Simples, né?

Sara: Adal, é sério, eu tenho um batismo pra ir em duas horas. Vou ser madrinha. Já quebrei a casa inteira no Oswaldo, não quero olhar na cara dele. Preciso que você passe naquela lojinha perto da casa da Ane, que a Marjorie adora, e compre um vestido branco com dourado.

Adalberto: É sério isso?

Sara: Muito! E urgente também. O Oswaldo fez o favor de comprar um azul e preto, e eu, inocente, só fui dar conta disso hoje, quando tirei o vestido da caixa. O pior é ver o Oswaldo com aquela cara de safado, rindo de mim, dizendo que o vestido é branco e dourado. Ai, que ódio! Varei tudo que vi pela frente em cima dele.

Adalberto: E os trigêmeos?

Sara: Estão de castigo.

Adalberto: Por quê?

Sara: Porque são uns mal educados. Vão fazer quatro anos, mas já ficam de deboche. Os três ficaram da palhaçada com o pai, falando que o meu vestido é, sim, branco e dourado. Botei de castigo! falei com eles: "ah,é branco e dourado? Então, vocês só saem do quarto quando ele ficar azul e preto". Acabei logo com a graça deles. Estão chorando os três lá no quarto. Acho que se assustaram com a quebradeira aqui em casa.

Adalberto: Sua maluca! Tou indo aí agora ficar com os meus afilhados.

Sara: Mas passa na loja antes e compra o meu vestido. Senão, você nem entra.

Comprei o cafona vestido branco e dourado com ódio mortal da Sara. Minha vontade era voar na jugular dela. Como é que pode deixar três crianças apavoradas dentro de um quarto, enquanto ela quebrava a casa inteira em cima do marido? Muita irresponsabilidade!

Cheguei na casa dela cuspindo fogo.

Adalberto: Toma essa porcaria e vai te embora pra esse batismo. Vou levar meus afilhados pra sair.

Sara: Desculpa, primo. Eu ando meio assim, porque acho que o Oswaldo anda fazendo essas coisas pra me desestabilizar, pra eu terminar com ele. Ele não deve ter coragem de pedir o divórcio e tá fazendo tudo pra eu tomar essa decisão.

Adalberto: Sara, desde o primeiro diz que vocês começaram a namorar, você acha que o Oswaldo não quer nada com você. E vocês ficaram noivos, casaram, tiveram três filhos e ele continua não te querendo? Como é que você aguenta viver com essa dúvida desde sempre?

Sara: Agora é diferente, primo. Olha aqui esse vestido.

Adalberto: Branco e dourado. Igual ao que eu comprei.

Sara: Como assim, Adal, até você vai ficar de palhaçada?

Adalberto: Não, tou falando sério. Gero, Lina e Liana, podem sair do castigo! A mãe de vocês tá maluca! É claro que isso aí é branco e dourado, Sara! Você tá daltônica?

Sara: Gente, não pode ser. Será? De qualquer forma, deixa eu passar o vestido que você comprou. Não precisava pedir pra embrulhar, primo.

E quando ela desembrulhou o vestido, eu tomei um susto.

Adalberto: Gente, mas esse vestido era branco e dourado.

Sara: Ué, mas ele é branco e dourado.

Adalberto: Óbvio que não! Azul e preto, tá cega?

Sara: Para de bobeira, Adal!

Adalberto: Eu tou falando sério. Crianças, Oswaldo, vêm aqui rapidinho, por favor!

E pra ira da Sara, todos estava enxergando vestido da mesma cor que eu.

Sara: O que é que foi? Que circo é esse que vocês estão armando?

Adalberto: Ninguém tá armando circo nenhum. A vendedora deve ter se enganado e, na hora de embrulhar, pegou o vestido de outra cliente. O fato é que esse vestido é azul e preto e o outro, sim, é branco... Não! É azul e preto também! Meu Deus, tem fantasma nessa casa. O vestido branco e dourado ficou azul e preto.

Oswaldo: Não, ele continua branco e dourado. O que você comprou, que era azul e preto é que também virou branco e dourado.

Sara: Para, gente! Agora, eu também tou vendo tudo azul e preto.

Adalberto: Gente, o vestido que eu comprei voltou a ser azul e preto. Crianças, voltem pro quarto de vocês agora!

Sara: Adal, o que tá acontecendo com a gente?

Oswaldo: Será que eu tou ficando maluco.

Adalberto: Vamos rezar! A gente precisa pedir pra esses espíritos do mal se afastarem daqui.

Sara: Adal, eu tenho um batizado agora. É do filho de uma amigona da época do Martins.

Adalberto: Esquece isso por ora.

Sara: Tá maluco? Eu preciso ir.

Oswaldo: Eu também vou. Você fica com as crianças?

Adalberto: Não! Ninguém sai!

A Sara ligou pra amiga, dizendo que estava com muita dor de barriga e sugerir de transferir o batismo pra outro dia. O problema é que o padrinho tinha vindo de Manaus só pra batizar o bebê e não ia poder retornar ao Rio até o fim do ano.

Foram todos pra casa da Sara e o batismo aconteceu na sala dela. Os convidados também se dividiram entre os que acharam que o vestido da Sara era branco e dourado e os que tinham a certeza que era azul e preto. O pior é que depois, como aconteceu comigo, eles mudavam de opinião e começava uma discussão. Teve gente que terminou casamento de anos, mãe deu na cara de filho, avó botou neto de castigo... Tudo porque ninguém chegava a um denominador comum. A cor certa, no caso...

Depois de batizar o bebê da amiga da Sara, o padre, que também já estava com a paciência esgotada, por causa do vestido da Sara e ao mesmo tempo bolado,  passou incenso na casa inteira pra afastar aquele encosto que estava de palhaçada com a nossa cara.

Mas o vestido continuava mudando de cor. Era só eu ir ao banheiro e voltar, que ele já estava diferente.

Resolvi tirar uma foto da Sara - obviamente, tive o cuidado de cortar o pescoço dela pra evitar expor minha prima - e publiquei no meu Facebook com a pergunta: "É branco e dourado ou azul e preto?".

E o mundo entrou em guerra por causa disso.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Eike loucura! ou O real motivo que fez o juiz Flávio Roberto de Souza tirar onda pelas ruas do Rio, com o Porsche do pai de Thor, Olin e Baldur Batista

No domingo passado, resolvi fazer uma visitinha surpresa à Ane. E não imaginava que seria o pontapé inicial pra eu realizar um dos maiores sonhos da minha vida.

Ane: Adal?!

Adalberto: Tô atrapalhando alguma coisa?

Ane: Não. Só um instantinho. Eu tô no telefone. 

Adalberto: Ah, tá, foi mal.

Ane: Fala moco-moco, é o meu plimo que veio aqui me ver. Mas o que eu estava falando mesmo, bebusungo? Ah, lemblei! É que tô com muita saudadinha de vochê. Muita, muita, tá, meu cochincocho?

Cara, uma das coisas que mais me irrita nessa vida é ver gente velha falando que nem bebê.

Adalberto: Ane, você ficou retardada? Desliga essa maldição agora!

Ane: Cala a boca, Adal!

Tomei o celular da mão da Ane e bati com o telefone na cara do imbecil, que estava falando com ela.

Ane: Tem noção do que você fez?

Adalberto: Tenho! Tô te salvando do ridículo, sua idiota! Que palhaçada é essa de ficar falando que nem bebê com homem, Ane? Não lembra daquela pesquisa, que saiu na Marie Claire, que dizia que casais que falam como bebê têm instinto assassino? Esse cara vai acabar te matando!

Ane: Esse cara se chama Flávio Roberto de Souza. Meu futuro marido.

Adalberto: Tá maluca? Isola! Você não vai casar com homem, que alimenta a tua imbecilidade. Eu não vou deixar!

Ane: Vem cá, você ligou o nome à pessoa? Sabe que é o juiz Flávio Roberto de Souza? Titular da 3ª Vara Criminal e responsável pelo processo contra o empresário Eike Barista? Tá bom pra você?

Adalberto: O quê? Garota, você tem que engravidar desse homem agora. Cadê ele? Liga pra ele, pede desculpas por eu ter batido o telefone na cara dele. Implora o perdão desse homem, se rasteja por ele. Anda!

Ane: Calma, Adal. Quando você tomou o telefone de mim, ele tinha dito que precisava desligar mesmo. Ele estava no meio de uma audiência e tinha inventado de ir ao banheiro, só pra dizer me amava. Mas já estava muito tempo fora. Ele não é lindo?

Adalberto: Ele é. Lindo, fofo, maravilhoso, incrível, tudo.

Ane: Mas ele é casado.

Adalberto: Ah, não acredito! Ah, quer saber, vamo parar de caretice? Não vejo problema nenhum nisso.

Ane: Você é um interesseiro!

Adalberto: Não sou.

Ane: É, sim!

Adalberto: Tá bom, eu quero andar de Porsche. Pronto, falei!

Ane: Como assim?

Adalberto: Ele apreendeu o Porsche do Eike Batista, e eu sou louco por esse carro, prima. Realiza o meu sonho?

Ane: Claro que não, tá maluco?

Adalberto: Tô, tô maluco, sim! E se você não conseguir isso pra mim, eu vou botar a boca no trombone. Vou falar pra a imprensa falada, escrita, televisiva, virtual e mais o que existir que você é amante do juiz que tá ferrando com a vida do Eike

Ane: Você não vai fazer isso, né, Adal

Eu bem que ia.

Adalberto: Claro que não, sua boba. Você acha que eu vou fazer isso com você? Tá maluca? Anita, olha só, meu amorzinho, vou falar que nem bebê com vochê pla vê chi vochê me entende melhor.

Ane: Não, para de palhaçada! Acho isso ridículo. O Flá meio que me obriga a falar assim com ele. Mas eu acho um saco.

Adalberto: Então, meu bem, já percebeu que só você tá cedendo pra ele? Você fala como bebê, porque ele gosta... Que mais? Ah, não importa. Eu acho que você tem que testar o amor desse cara por você. Vai que ele só tá te usando? Já pensou nisso? 

Ane: Não.

Adalberto: Aí, é burra! Depois, ele te deixa e você vai ficar toda apaixonadinha, sem eira nem beira, com uma mão na frente e outra atrás.

Ane: Mas eu não tô com ele só por causa de dinheiro, primo. É amor sincero.

Adalberto: Eu acredito em você.

Óbvio que não.

Adalberto: Mas você sabe o que se passa do outro lado? Se ele, realmente, te ama?

Ane: Não.

Adalberto: Então, eu vou te deixar com essa pulguinha atrás da orelha. Passar bem.

E saí de maneira cênica, batendo porta. Foi a melhor coisa que fiz. No dia seguinte, ela já estava chantageando emocionalmente o bebezinho dela. Quando me ligou pra dar a notícia, senti até vontade de chorar.

Ane: Primo, tá tudo certo! Ele vai levar o carro pra casa hoje! E, amanhã, vai trazer aqui pra casa, pra gente dirigir!

Adalberto: Urru! Ganhei na mega-sena! Prima, brigado, tá? Te amo.

Mas pra minha falta de sorte, durante o trajeto pra casa da Ane, o juiz Flávio Roberto de Souza foi flagrado por um infeliz e virou notícia em todos os sites de jornais do país, por estar dirigindo o Porsche do empresário Eike Batista, que ele mesmo havia mandado apreender.

Meu celular tocou um segundo depois de eu ler o título da matéria. Era a Ane. E eu não atendi.

Ela ligou mais 87 vezes. E eu continuei sem atender. 

No fim do dia, após receber vários mensagens desaforadas dela por torpedo, e-mail, WhatsApp e até pombo-correio, resolvi ir num centro de macumba pedir pra fazerem um trabalho forte pra ficar tudo bem com o juiz e, principalmente, entre ele e a minha prima.

Pra minha triste surpresa, a Ane tinha ido lá fazer a mesma coisa. Quando ela me viu, foi um tal de atirar galinha preta, milho, búzios, terra e tudo o que tivesse ao alcance dela em cima de mim, que já estavam achando que eu era um bandido. Teve gente que chamou a polícia e tudo pra me prender. 

O bom foi que os policiais chegaram na hora que a Ane arremessou a imagem de um Exu, que estilhaçou na minha cabeça. Foram eles que me levaram pra emergência do hospital mais próximo.

Parecia que tinham aberto uma bica de sangue na minha cabeça. O pior é que eu desmaio quando vejo sangue. E desmaiei, claro. 

Acordei lindo e belo, com a cabeça toda enfaixada e com a Ane me pedindo desculpas.

Ane: Eu achei que você fosse morrer.

Adalberto: Eu merecia, né?

Ane: Não fala assim. Homem nenhum é digno disso. E eu nem estava curtindo o Flávio tanto assim. Estava achando um porre aquele negócio de ficar falando que nem bebê.

Adalberto: Mas o que estava em jogo não era o Flávio, mas o Porsche, né? Era a minha única chance de dirigir um Porsche nessa vida... Vamos beber pra esquecer? A médica vai me dar alta daqui a pouco.

Ane: Você pode beber?

Adalberto: Não. Mas não tem problema. Se eu não morri com o Exu que você tacou na minha cabeça, não vai ser uma cervejinha que vai me matar.

A gente foi pra uma boate, e eu bebi 30 cervejinhas. E elas quase me mataram. Mas ainda bem que eu não morri. A Ane ficou com o Thor Batista, sem saber quem ele era, eles têm saído direto juntos e, com isso, eu ainda corro o risco de conseguir dirigir um Porsche nessa vida.

Eike coisa boa!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Lu é deportada dos Estados Unidos na Quarta-Feira de Cinzas, a tempo de curtir a rebarba do carnaval

Fiquei o carnaval inteiro em casa assistindo a filmes no Netflix. Na Quarta-Feira de Cinzas, quando eu deveria voltar ao trabalho (depois do meio-dia), liguei pro meu chefe, disse que estava com dor de barriga, ele não acreditou, mas se fingiu de bobo e mandou eu ficar em casa. E eu fui pra um bloco com a Pocahontas, a Fiona e a Rapunzel, digo Ane, Marjorie e Sara. Eu era um lindo Corcunda de Notre Dame. Só que não.

Marjorie: Não conseguiu falar com a Lu, Adal?

Adalberto: Não. Aquela vaca encheu a minha paciência pra comprar tecido branco pra cortina da fantasia dela de bunda da Paolla Oliveira e, agora, some. Que ódio.

Ane: Gente, a Lu é maluca. Deve estar se atracando com o primeiro cara vestido de Minnie que viu pela frente.

Sara: Ah, ela não ia furar com a gente, por causa de homem.

Ane: Oi?

Marjorie: Ela vive fazendo isso.

Adalberto: Gente, que medo, estão me ligando de um número gigantesco.

Marjorie: Não atende. Deve ser aquela gente chata de telemarketing.

Ane: Ah, ninguém merece isso hoje.

Sara: Atende. Vai que é alguma coisa importante. Qualquer coisa finge que tá ruim de área e desliga.

A Sara anda tão espertinha, né?

Adalberto: Alô.

Lu: Adal, sou eu, Lu. Me salva!

Adalberto: Gente, é a Lu. Onde é que você tá, sua maluca.

Lu: Na Disney.

Adalberto: Disney? Gente, a Lu tá na Disney! Para tudo.

Marjorie: Me dá esse telefone aqui. Lu, o que é que você tá fazendo na Disney, pode me falar?

Lu: O Francislúcio vai ter uma convenção do trabalho dele aqui e me chamou pra vir com ele. O cara pagou TUDO, prima!

Marjorie: Então, tá tudo bem com você, né? Ligou só pra botar inveja na gente, é isso mesmo?

Lu: Não, garota, eu tô foragida!

Marjorie: Como assim foragida?

Lu: Eu fui numa loja ver umas calças pra comprar e acabei ficando atolada dentro de uma skinny de stretch. Fui parar no hospital pra tirar essa bosta.

Marjorie: Lu, você é maluca? Como é que vocês experimenta uma calça nos Estados Unidos? Americana não tem coxa. E você tem um saco de boxe em cada perna. Claro que isso não ia prestar.

Adalberto: Me dá esse telefone aqui!

Lu: Eu fui levada de ambulância pra uma emergência.

Adalberto: Sério?

Lu: Arrã. Agora, eles querem me cobrar por uma cirurgia. Só porque usaram bisturi pra cortar a bendita da calça, é mole?

Adalberto: Eu só não consigo entender por que você foi parar na Disney.

Lu: Garoto, a conta da cirurgia foi de 40 mil dólares. Eu não tenho como pagar isso. Saí vestida de enfermeira pela porta dos fundos do hospital e peguei carona num caminhão, que distribui bebida na Disney.

Adalberto: Por que você não pediu pro motorista te deixar no hotel que vocês tá hospedada?

Lu: Porque, da Disney, ele ia pra Miami. Não ia passar perto do hotel.

Adalberto: E agora? Quer que a gente ligue pro teu peguete?

Lu: Não é peguete. Era amor verdadeiro, tá?

Preguiça.

Adalberto: Ai, tá bom. Quer que a gente ligue pra ele, sua mala?

Lu: Não! Já ligaram pra esse cachorro do hospital. Eu ouvi uma assistente social falando com ele, quando eu fui pro quarto. O safado disse que não me conhecia.

Adalberto: Ah, era pra ele o seu amor eterno mesmo? Porque você não tomou o telefone dela e deu esculacho nesse mané?

Lu: Porque eu estava ainda meio grogue, sob o efeito da anestesia, Adal! Tinha acabado de sair de uma cirurgia, esqueceu?

Adalberto: Oi? Eles só cortaram uma calça de você. Pra que te deram anestesia?

Lu: Não sei. Aqui nos Estados Unidos é tudo assim. Povo exagerado... Agora, eu tô sendo procurada pela polícia, acredita? Já apareceu foto minha na televisão e tudo.

Adalberto: Amoreca, a gente não tem muito o que fazer por você, então. Faz o seguinte: se entrega pra polícia e vem linda, deportada pro Brasil de enfermeira. É bom que já vai estar com fantasia pra ir com a gente pra outro bloco amanhã. Já sai direto do aeroporto e pega um táxi pra Laranjeiras. A boa vai lá. Vou até inventar outra dor de barriga pra faltar o trabalho de novo...vai

Lu: Sério que você acha que eu devo me entregar pra polícia, primo?

Adalberto: Lógico! Nem pensa, vai na fé! Ó, em homenagem a você, a gente vai fazer uma selfie. Parece coincidência, mas a gente veio de personagem da Disney, aqui, pro bloco. Vou te mandar por WhatsApp. Tem Wi-Fi aí, né? Que pergunta! Claro que tem Wi-Fi na Disney, dããããããã! Agora, deixa eu ir lá, porque, senão, vou ficar pra trás. As meninas já devem ter bebido umas dez cervejas, enquanto a gente tá aqui conversando, e eu de bico seco. Vou desligar. Beijo. Te amo. Vem com Deus, tá?

Lu: Tá.

E, no dia seguinte, fui para o bloco vestido de médico e as meninas, de enfermeiras. A Lu, quando viu a gente, chorou de emoção. Achou linda a surpresa. A farra no bloco foi maravilhosa. Ela bebeu todas, pegou todos, enfim, foi tudo. Era a deportada mais feliz, que eu já vi na minha vida.

domingo, 30 de novembro de 2014

Lu vira mendigata, Ane apanha e o dia acaba com uma festa de aniversário surpresa

Na última quinta, 27 de novembro, foi meu aniversário. E o dia já começou pra mim com fortes emoções, com a primeira ligação.

Adalberto: Alô, você vai ser a primeira pessoa a me dar parabéns, é?

Marjorie: Vou. E você vai ser o último a saber que a Lu virou mendiga em Niterói?

Adalberto: Oi?

Marjorie: Na verdade, não é bem mendiga. É mendigata, que é a uma nova linhagem de subcelebridade. Uma espécie de mulher-fruta das ruas.

Adalberto: É muita informação a uma hora dessas. Acabei de acordar. Eu tenho que fazer alguma coisa ou você só quis me escandalizar com essa notícia?

Marjorie: A gente precisa tirar ela de lá, primo. Ela pegou o ponto de uma ex-mendigata, que ganhou um dia de princesa num desses programas vespertinos de fofoca, mas, depois dos 15 minutos de fama, voltou pras ruas e deu de cara com a Lu no lugar que ela morava. Parece que tá a maior confusão lá.

Adalberto: Tá. Vou passar aí pra te buscar, e a gente vai lá encontrar com essa maluca.

Eu tinha certeza que essa era mais uma surpresa de aniversário, como elas fazem pra mim todo ano. Essa história estava muito mirabolante. Mas, no caminho, a atuação da Marjorie me confundia.

Marjorie: O que todos os meus amigos vão dizer, se descobrirem que uma prima minha virou mendigata. É capaz até de eu perder cliente, sabia?

Adalberto: Como é que você descobriu que ela virou mendiga?

Marjorie: Mendigata.

Adalberto: Marjorie, eu me nego a usar essa palavra.

Marjorie: Por quê?

Adalberto: Porque eu acho mais digno ser mendiga, do que essa palhaçada.

Marjorie: Ela ligou pra Ane pra contar.

Adalberto: E cadê a Ane?

Marjorie: Estava numa DR com um peguete em Japeri e vai pra lá direto.

Adalberto: A Sara já sabe?

Marjorie: Sabe. A casa dela é perto de onde a Lu tá. Pelo tempo, ela já tá lá com os trigêmeos.

Adalberto: Por que ela levou as crianças pra essa baixaria?

Marjorie: Pra fazer chantagem emocional na Lu.

Quando chegamos, e vimos os trigêmeos da Sara brincando com Lu num colchão, no meio de uma calçada, tive certeza que se tratava de uma surpresa pra mim. A Ane, provavelmente, ia chegar com o bolo, e a festa ia ser no meio da rua. Elas sabem que eu sempre desconfio das surpresas, e, a cada ano, tentam ser mais originais.

Fui correndo falar com as crianças.

Adalberto: Meus amores! O dindo anda tão em falta com vocês.

Sara: Anda mesmo.

Lu: Se veio me tirar daqui, pode tirando o seu cavalinho da chuva.

Adalberto: Por mim, você morre de frio aqui nessa rua.

Não falei nada do meu aniversário, porque sabia que era uma surpresa pra mim. Queria ver até onde ia essa palhaçada.

De repente, da esquina, um monte de gente mal encarada veio na nossa direção.

Sara: Jesus, Maria, José, ela tá vindo com uma gangue te tirar daqui. Bem que ela falou. Vambora agora.

Marjorie: Aquela é a ex-mendigata, primo.

Lu: Quero ver alguém tocar um dedo em mim.

Sara: Eu vou levar os meus filhos daqui agora. Táxi!

Quando a Sara correu pra dentro do táxi, eu me apavorei.

Adalberto: Gente, isso aqui não é uma surpresa de aniversário?

Marjorie: Não.Vambora daqui agora, Lu.

Lu: Me larga. Eu não saio daqui, antes de gravar um programa de televisão. Ela teve a chance dela e não soube aproveitar. Eu quero ter a minha oportunidade. Isso aqui não é dela. Tá escrito o nome dela aqui, em algum lugar?

Peguei a Lu à força no meu colo.

Adalberto: Vambora, sua retardada. Na rua, a lei é do mais forte.

Lu: Me larga!

Adalberto: Segurar os braços dessa maluca, Marjorie. Ela tá me enforcando.

E corremos pro meu carro, com uma doente mental aos berros no meu colo.

Marjorie: Coisa mais feia, hein, dona Lu.

Lu: Por quê? Só porque eu tou correndo atrás de um sonho?

Marjorie: E isso sonho?

Lu: É, ué. Qual o problema?

Adalberto: O problema é que ninguém sonha em ser mendiga.

Lu: Mas eu quero ser mendigata!

Adalberto: Piorou.

Lu: Pra onde vocês vão me levar?

Adalberto: Pra minha casa. Eu mereço ter um aniversário digno.

Mas a Ane estragou os meus planos.

Marjorie: Alô. Oi, Ane. Ai, não acredito. Tá indo pra delegacia? Tá bom, a gente te encontra lá. A Ane chegou lá e não viu a gente, foi perguntar pela Lu e levou uns tapas da ex-mendigata, que acabou de retomar o ponto. Vamos pra delegacia daqui do bairro.

Adalberto: Não tou acreditando nisso.

A Ane estava toda descabelada, prestando queixa. E eu só queria explodir pra ver aquilo tudo acabar da pior maneira. Que desgaste psicológico!

A mendigata foi presa pela agressão. Mas como uma rede de televisão chegou lá poucos minutos depois, se propondo a pagar a fiança, só pra explorar ainda mais a imagem da pobre coitada, ela foi solta e voltou pras ruas.

E eu voltei pra casa. Irado!

Adalberto: Não vou levar ninguém em casa. Se vocês quiserem, dormem lá no meu apartamento ou peguem um táxi até a casa de vocês.

Ane: Eu vou ficar por lá hoje mesmo.

Lu: Eu também.

Marjorie: Vou decidir ainda.

E quando abri a porta de casa, estavam os meus pais, minha irmã, meu cunhado, meu sobrinho, a Sara, o marido e os trigêmeos, catando parabéns pra mim.

Marjorie: Gostou da surpresa?

Adalberto: Adorei.

Respondi sem saber o que foi surpresa de fato. Mas não queria falar das coisas que vivemos até ali na frente dos meus pais. Ele siam ficar preocupados à toa. Mas a curiosidade tomou conta de mim até o terceiro copo de cerveja. Do quarto em diante, eu só queria que aquele dia nunca mais acabasse, já que eu estava com as pessoas que eu mais amo nesse mundo.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ane faz escova progressiva e, logo em seguida, é vítima do falso desafio do balde de gelo

Eu estava cortando as minhas unhas do pé, quando a Ane entrou esbaforida na minha casa.

Ane: Primo, você precisa me salvar.

Adalberto: Ane, eu vou confiscar essa sua cópia da chave da minha casa. Eu fiz pra você e pras outras primas pra uma situação de emergência.

Ane: Mas é uma emergência. Você tá muito ocupado? Preciso só você pode me salvar.

Adalberto: Eu tou cortando a unha do pé, depois vou cortar da mão, limpar o ouvido, espremer cravo, cortar o cabelinho do nariz... Eu pedi um dia de folga lá no meu trabalho só pra isso.

Ane: Não. Então, para tudo. A minha necessidade é mais urgente.

Adalberto: Quem morreu?

Ane: Ninguém. Mas eu tou desesperada. O Robertlin acabou de me mandar o desafio do balde de gelo pelo Facebook, sendo que eu acabei de fazer a minha escova no salão que a Lu trabalha.

Adalberto: Ficou ótima. Nem tinha reparado.

Ane: E agora, primo?

Adalberto: Qual é questão? Não tou entendendo.

Ane: Eu preciso ficar sem lavar o cabelo por três dias pra escova pegar, mas eu não posso deixar de aceitar o desafio do balde de gelo. Imagina, eu comecei a sair com o cara há duas semanas... Se eu não fizer, ele vai achar que eu sou mí zura.

Adalberto: Faz daqui a três dias, some, diz que tá gripada, com enxaqueca, inventa alguma coisa.

Ane: Primo, eu não posso mentir pro cara, que eu acho que é o homem da minha vida.

Adalberto: Ane, essa papinho de novo, não. Lembra que você já deixou de fazer uma escova marroquina, por causa de um judeu, que no final das contas não valia nada? Não se prejudica por homem...

Ane: Esquece o passado, Adal. Eu não posso julgar o Robertlin pelos outros idiotas que eu conheci.

Adalberto: Ué, mas além dos idiotas, me diz um carinha bacana de verdade, pra casar que você tenha ficado.

Ane: Primo, a questão é a seguinte: eu tenho que encarar esse desafio e tem que ser hoje, porque o Robertlin vai depositar o dinheiro da doação amanhã. E dane-se a escova progressiva.

Adalberto: Ué, mas se você já estava decidida, por que veio me pedir opinião?

Ane: Eu não vim te pedir opinião. Só quero o teu apoio, a tua compreensão e que você me diga que existe um produto inovador, que regenera o cabelo de quem por um descuido lavou a cabeça logo após ter feito uma escova progressiva. 

Adalberto: O que mais que você quer? Um homem perfeito? Ah, esqueci que isso você já tem. Quer café? Por ora, é isso que eu posso te proporcionar. Fiz mais cedo. Ainda deve estar quentinho, quer?

Ane: Não, brigada. Me arruma um balde com água e gelo, por favor.

Adalberto: Você é uma pobre coitada mesmo, Ane. Só falando assim. Vou misturar com água sanitária pra te deixar logo toda estragada.

Ane: Não faça isso!

Adalberto: Você acha que eu vou fazer isso? Só a água gelada já vai fazer um estrago suficiente. Não quero nem ver.

O pior é que eu nunca lembro de encher as forminhas de gelo. E não tinha uma garrafa de água gelada na geladeira. Tive que ir no posto de gasolina comprar gelo. Que raiva. Essa caridade da Ane já estava me dando trabalho.

Adalberto: Pronto, tá aqui o gelo. Pega água lá na bica, enche o balde e vai fazer essa palhaçada lá no banheiro. Não vem inventar de molhar minha casa, não. Respeito a causa, mas vai fazer isso dentro do box.

Ane: Tá bom. Você pode gravar pra mim, primo?

Adalberto: O meu banheiro é minúsculo. Não cabe eu e você lá. Pendura o celular na porta e deixa ele filmando. Depois, você corta.

Ane: Beleza. Me deseja boa sorte.

Adalberto: Boa sorte.

Voltei a corta as minhas unhas do pé, porque esse é o tipo de caridade que ninguém faz por mim. Mas da sala, ou via tudo que a Ane falava.

Ane: Bom, eu fui desafiada pelo meu amor Robertlin. E eu aceitei o desafio do balde de gelo. Eu fiz uma escova progressiva hoje, tinha que ficar sem lavar o cabelo por três dias, mas como o meu bebezão vai depositar o dinheiro amanhã, a vaidade vai ficar em segundo plano. Amor, isso é porque eu te amo muito.

Pelo grito que ela deu, a água devia estar padrão Polo Norte.

Ane: Agora, eu desafio as minhas primas Lu, Sara, Marjorie e o meu primo Adalberto a fazerem o mesmo.

Na hora, me subiu um sangue tão quente que não aguentei nem esperar ela terminar a gravação.

Ane: Primos queridos, espero que vocês...

Adalberto: Ane, sua retardada, abre essa porta. Tá maluca, comeu banana verde? Eu não vou fazer desafio de balde de gelo nenhum. Eu já ajudo um monte de parente, que me pede as coisas. Não tenho mais dinheiro pra ajudar ninguém. Aliás, era isso que você tinha que fazer: ajudar quem tá perto. Não ir na onda dessas modinhas. Eu já comprei o gelo do meu bolso pra você fazer essa palhaçada. Isso já foi a minha ajuda. E eu vou ligar agora pra Marjorie, pra Lu e pra Sara pra falar dessa tua presepada. 

Só se ouvia o choro da Ane. Não sei se era por causa do cabelo, porque eu estraguei a gravação dela ou porque ela tudo se faz de vítima mesmo.

Mas o melhor foi que, quando peguei o meu celular pra ligar pras meninas, tinha um Whatsapp bombástico da Lu, mandando eu ligar a televisão. Estavam transmitindo ao vivo a prisão de uma quadrilha que conseguia dinheiro de inocentes, por meio de caridade. E detalhe: o Robertlin era o chefe do bando.

Adalberto: Ane, corre aqui! 

Ane: Não fala mais comigo! Você morreu pra mim!

Adalberto: Vem ver o Robertlin! Ele tá aqui.

Em um segundo ela chegou na sala. Ficou passada com o que viu e com uma cara de Madalena arrependida.

Ane: Ele não vale nada essa cachorro.

Adalberto: Viu? Eu te preveni... 

Ane: E agora, primo?

Adalberto: Agora? Chora porque você motivo de verdade. Mas chora aqui no meu ombro, porque eu te amo e tou com você pro que precisar.

Tomara que, dessa vez, ela aprende.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Visita à grávida com Marjorie, em Botafogo, termina em trabalho de parto, em Nova Iguaçu

Hoje, acordei com uma ligação da Marjorie, por volta do meio-dia.

Adalberto: Fala, Jojô.

Marjorie: Que voz é essa? Tá tristinho?

Adalberto: Não, tô dormindo mesmo.

Marjorie: Ué, não foi trabalhar hoje?

Adalberto: Não. Ando com uma estafa, prima... Meu chefe até me deu o dia de hoje de folga.

Marjorie: Estafa de quê? Você quase não trabalha, vive inventando que tá com dor de barriga pra ficar em casa... Só se for estafa de coçar o saco.

Adalberto: Cara, eu tenho trabalhado muito. Sério.

Marjorie: Sei...

Adalberto: Para de duvidar de mim.

Marjorie: Você é uma farsa, garoto!

Adalberto: Para!

Marjorie: Olha só, levanta dessa cama e vamos comigo visitar uma menina, que trabalha aqui na fábrica?

Adalberto: Ela tá doente?

Marjorie: Não, tá grávida. Mas ela fica até hoje na casa da mãe, em Botafogo, e, amanhã, já vai pra casa, em Nova Iguaçu, pra esperar o bebê nascer. E eu não sei chegar em Nova Iguaçu. Aí,combinei de vê-la em Botafogo mesmo e, depois que o bebê ficar grandinho, eu marco alguma coisa lá em casa, convido ela e vejo a criança.

Adalberto: Que absurdo!

Marjorie: Ué, vai me levar em Nova Iguaçu?

Adalberto: Lógico que vou. Com o maior prazer. Só que não.

Marjorie: Bobo. Vem logo aqui. Tô te esperando.

Adalberto: Mas Jojô, a Zona Sul, a essa hora, tá toda engarrafada...

Marjorie: Vem pra cá de carro e, daqui, a gente vai de metrô.

Adalberto: Tá bem, sua chata.

Até que gostei de ter um motivo pra sair da cama. Porque, na verdade, o problema nem é sair da cama. Mas se eu ficasse deitado o dia inteiro, à noite, eu não ia conseguir dormir. Foi bom pra dar uma cansada...

Mas só o trajeto do Recreio ao Leblon de carro, já me deixou morto.

Marjorie: Como assim cansado?

Adalberto: Ué, tô cansado. Dirigir do Recreio até aqui cansa. Quero voltar pra casa e dormir mais umas três horas. Me deu estafa.

Marjorie: Ah, garoto, para! Vamos logo!

A Marjorie, que é toda "vida saudável", resolveu ir do Leblon até a Praça General Osório caminhando pela orla.

Adalberto: Que programa de índio, hein!

Marjorie: Índio vive muitos anos, primo. Isso é bom pra saúde!

Adalberto: Prefiro comer chocolate.

Marjorie: É, e, depois, reclama da pochete.

Adalberto: Quem tá com pochete?

Cuidei de encolher bem a barriga, antes de fazer essa pergunta pra ela.

Marjorie: Você! Ou você não se olha no espelho. Olha só essa barriga imensa!

É, não adiantou muito...

Adalberto: Será que, com essa caminhada, eu perco alguma coisa?

Marjorie: Só se for a vergonha na cara, primo. Pra perder essa pança, você tem que correr uma hora por dia, durante um ano inteiro.

Adalberto: Então, vamos pegar um táxi?

Marjorie: Não, cala a boca e aperta o passo. Tá andando muito devagar.

Adalberto: Que saco!

Quando chegamos à Praça General Osório, eu estava esbaforido. Mal conseguia respirar. Pra entrar no metrô, fomos empurrados pela massa. Estava abarrotado, e eu continuava sem conseguir respirar. Quando saí, estava tão fraco, por não ter conseguido respirar direito, que mal consegui respirar também. Ou seja, em coisa de minutos, eu achava que fosse morrer.

Na casa da mãe da funcionária da fábrica da Marjorie, fomos avisados que ela tinha ido pra uma consulta numa clínica na Gávea e, de lá, ia visitar uma amiga lá perto e, depois, ela iria direto pra casa, em Nova Iguaçu. Pegamos o endereço da amiga e seguimos pra Gávea. De ônibus!

Tinha um lugar no fim do ônibus, e eu corri pra sentar.

Marjorie: Adal, eu vou ficar em pé?

Adalberto: Ué, vai. Você não correu. Eu fui mais rápido que você.

Marjorie: E o cavalheirismo?

Adalberto: Marjorie, você é rica, tem uma fábrica de bolsas. A gente podia ter ido de táxi.

Marjorie: Eu ainda tô com trauma de taxista, desde o último assalto que sofri.

Adalberto: Então, fica em pé aí pra ver se passa.

No trajeto, entraram no ônibus um vendedor de todos os doces possíveis e imagináveis, um evangélico fazendo pregação, um rapaz sem uma perna pedindo dinheiro pra comprar remédio, um vendedor de descascador de legumes e um assaltante que foi preso por um policial à paisana, que estava no ônibus.

Depois da tentativa de assalta, a Marjorie estava aos prantos. Uma senhora de mais de 60 anos, que estava sentada ao meu lado, levantou para a Marjorie sentar. Fiquei tão sem graça por isso que esqueci de ser fofo com a minha prima.

Adalberto: Tá com trauma de andar de táxi ainda?

Marjorie: Ai, não fala assim comigo.

Adalberto: Desculpa, deita aqui.

E ela se recostou no meu ombro e dormiu. Eu fiz o mesmo. Só que com a cabeça encostada no vidro da janela do ônibus. Acordamos com o ônibus parado... em Nova Iguaçu!

Adalberto: Jojô, acorda! O ônibus tá parado. Deve ter chegado no ponto final.

Marjorie: Tudo bem. A gente tem que saltar no ponto final mesmo.

Mas a gente não estava no ponto final. Só depois de quase ficarmos sem voz de tanto berrar pra alguém abrir o ônibus pra gente sair, descobrimos que estávamos na garagem da empresa de ônibus, em Nova Iguaçu.

Adalberto: Como assim Nova Iguaçu?

Marjorie: Não pode ser, o ponto final é em Botafogo.

Trocadora: Sim, senhora, mas a gente precisava fazer a troca de turno, e a garagem da empresa fica aqui em Nova Iguaçu.

Adalberto: Que loucura! Não é mais fácil uma garagem em Botafogo?

Trocadora: Com certeza, mas como o senhor sabe, Botafogo é um bairro de passagem e que não tem mais espaço pra nada, né? A empresa bem que queria ter uma garagem lá. Se o senhor achar, avisa pra gente. Vai ser um favor que o senhor vai fazer.

Ainda tive que ouvir isso da trocadora.

Marjorie: Adal, e agora? Como é que a gente vai fazer pra sair daqui?

Adalberto: A gente vai pegar um táxi até a minha casa, e você que vai pagar pra aprender...

Marjorie: Aprender o quê?

Adalberto: Não sei. Mas acho que você tem que tirar alguma coisa disso tudo.

O taxista parecia que estava bêbado. E estava. Tanto que, na primeira blitz da Lei Seca, ele foi parado. E quando o carro ia ser rebocado, um funcionário do Detran chegou desesperado. Um carro que tinha acabado de sofrer um leve acidente estava com uma mulher grávida, que, com a batida, ficou nervosa e o bebê estava começando a entrar em trabalho de parto. Só que o carro não estava mais funcionando.

Me ofereci pra dirigir o táxi do motorista bêbedo pra levá-la no hospital. E eles abriram uma exceção e deixaram. Quando trouxeram a grávida, vimos que se tratava da funcionária da Marjorie.

Marjorie: Caraca, é a Samantha.

Adalberto: Quem é Samantha?

Marjorie: A menina que trabalha lá na fábrica, que a gente ia visitar.

Samnatha: Marjorie! Como assim?

Marjorie: É...

Adalberto: A gente estava indo fazer uma surpresa na sua casa.

Samantha: Mas essa doida falou que não viria me ver aqui, em Nova Iguaçu...

Marjorie: Samantha, para de falar, você tá entrando em trabalho de parto.

No carro, estávamos eu, Marjorie, Samantha e o marido dela. No meio do caminho, tive que parar o carro. O bebê estava nascendo! O marido dela desmaiou ao ver aquela quantidade absurda de sangue, que estava saindo da Samantha.

Marjorie: Adal, vai buscar ajuda,q eu eu fico aqui com ela.

Adalberto: Não, vai você buscar ajuda, que EU fico aqui com ela. Chega de me dar trabalho por hoje. Tô cansado! Desculpa, Samantha, mas a minha cota de paciência com a Marjorie acabou há umas cinco horas mais ou menos.

O tempo que a Marjorie demorou foi o suficiente pra eu ter que fazer o parto do bebê da Samantha. Eu estava nervoso, assustado, com medo, com nojo, impressionado, tremendo, mas com alguma coisa de felicidade, que não cabia em mim. Estava me sentindo um herói. A coragem era tanta que cortei o cordão umbilical com o dente.

O marido da Samantha despertou a tempo de fazer umas imagens com o celular do nascimento do bebê. Vou guardá-las pra vida toda. Foi lindo!

Valeu muito a pena ter feito esse programa de índio com a Marjorie. Depois de um dia tão intenso, eu nem sentia mais estafa. Podia fazer mais uns 30 partos non stop!