Ontem, foi Dia de Finados e eu só pensava em matar minha fome. Tinha saído no dia anterior, acordei tarde, faminto, mas a dispensa estava vazia. Nem ia tomar café. Como já era hora de almoçar, queria ir para algum restaurante e encher a pança. Mas queria companhia. Liguei para a Sara:
Sara: Oi, Adal.
Adalberto: Está falando baixinho por quê?
Sara: Eu estou no cemitério. Vim aqui com a minha sogra. A gente está no meio de uma oração. Depois, eu te ligo.
Eu queri ter falado que não precisava me ligar depois, que o que eu queria fazer não podia esperar a oração dela... Mas ela não me deu tempo para isso e desligou. Se desse tempo, eu também iria perguntar para quem elas estavam rezando. Mas isso, eu posso saber depois.
Opção 2: Marjorie.
Marjorie: Oi, Adal.
Adalberto: Que voz é essa?
Marjorie: Como assim?
Adalberto: Você está com uma voz de enterro.
Marjorie: É que eu acabei de voltar do enterro da Dora.
Adalberto: Quem é Dora?
Marjorie: A minha hamster. A minha vida acabou.
Eu senti vontade de rir. Juro, não consigo sofrer pela morte de um bicho, mas entendo quem é assim.
Adalberto: Ela morreu?
Marjorie: Morreu, né, Adal...
Adalberto: É, eu sei. Não foi isso que eu quis perguntar. Eu só queria lamentar, mas acabou me expressando mal e fiz uma pergunta meio que óbvia. Mas, na verdade, eu só queria te dizer que... Bom, eu queria te dizer que... Nessas horas... A vida... Eu acho que quando um animal morre é como se... Não... talvez seja melhor você... Sei lá.
Ai, acho que é mais fácil confortar uma pessoa que perdeu a mãe, do que alguém que perdeu um hamster, que só sabia fazer sujeira pela casa inteira!
Marjorie: Adal, eu vou desligar. Eu preciso ficar um pouco aqui, na minha.
Melhor assim.
Adalberto: Está bem, então, amore, só liguei para saber se estava tudo bem com você. Eu lembrei que a Dora estava mal e aí te liguei para isso. Eu só não sabia o nome dela, né? Mas lembrei que a hamster estava bem mal. Eu sou péssimo para nomes. E, quando você fala Dora, sempre me vem à mente a Dorinha, a nossa ex-vizinha lá do Méier. Lembra da Dorinha? Uma querida aquela menina. Parece que ela teve um filho. Aliás, vamos combinar um dia de ir lá na casa dela, visitar a mãe dela, conhecer o filhinho dela. parece que ela separou do marido. Mas, segundo diziam, o cara não valia nada. Talvez tenha sido melhor assim, né? Marjorie? Marjorie? Jojô? Ih, a ligação caiu.
Ou, não. Decidi que a Lu seria a minha companhia para almoçar.
Lu: Oi, Adal.
Ela parecia bem nervosa, mas eu fingi que não tinha percebido nada.
Adalberto: Boa tarde!
Lu: Boa tarde, por quê?!
Adalberto: Porque já passou do meio-dia e as pessoas educadas cumprimentam assim.
Lu: Mas eu estou cansada de educação. Eu fui educada, maneira, parceira com aquela canalha do Clodowilson ele me trocou por uma garota, que ainda nem tirou as fraldas. Eu não mereço isso! Eu não mereço isso! Eu vou matar aquele desgraçado!
Adalberto: Lu, olha só, hoje é Dia de Finados. Deixa para matar ele outro dia. Imagina como deve ser ruim para uma família quando alguém morre no Dia de Finados...
Lu: Eu quero que se dane ele e a família dele. Aquela jararaca da mãe dele, que dizia que eu era a sua segunda filha, nem atende as minhas ligações. Se ela cruzar a minha frente, eu mato ela também. Adal, eu estou indo agora com uma faca até a casa do Clodowilson para matar aquele ordinário.
Eu precisava parar essa doida!
Adalberto: Lu, não! Me espera. Eu vou com você. Te ajudo a matar ele, a mãe dele, o pai dele, a irmãzinha dele, que é uma fofa, mas é irmãzinha dele, a vozinha dele, o cachorro, o papagaio, o periquito... Chacina total. Acabar com aquela raça de gente. Topa?
Lu: Não, primo. Eu sei que você está falando isso só para me enganar. Depois, vai chegar aqui e não vai fazer nada disso.
Adalberto: Eu te prometo.
Lu: Não. Depois, você vai ficar sabendo pelo boletim de ocorrência, que, com certeza, alguém vai fazer.
Adalberto: Lu, não! Por favor! Lu! Lu! Lu? Desligou. Droga!
Perdi até a fome... Com a Sara ocupada com a sogra e a Marjorie arrasada, só me restou ligar para a Ane me ajudar a conter a Lu.
Ane: Oi, Adal.
Adalberto: Que voz é essa?
Parecia que ela estava gemendo.
Ane: Nada, Adal, fala.
Adalberto: A Lu saiu de casa agora para matar o Clodowilson. A gente precisa impedir essa louca de fazer isso. Liga para ela. Eu falei com ela, mas não adiantou nada. Acho que ela te ouve mais.
Ane: Não, não, não, não, não, não, não, não, nãããããããããããããããããããoooooooooooooooo!
Adalberto: Está bem, Ane. Não precisava disso tudo. Era só dizer uma vez que não, que eu ia entender.
Ane: Calma, Adal.
Adalberto: Calma, o quê? Eu estou calmo. Você é que está gritando comigo. Aliás, eu tenho motivos para estar nervoso. A nossa prima foi matar o ex-namorado e nem por isso eu te destratei.
Ane: Adal, eu estava transando.
Adalberto: Como assim? Você atende telefone, enquanto transa?
Ane: Ideia do Creonelson. Ele disse que era para eu atender. Fetiche bobo.
Muito bobo!
Adalberto: Quem é esse idiota?
Ane: Adal, o Creonelson, não lembra? Falecido Creonelson, que eu namorei tem uns dois anos, mas que terminou comigo, porque se mudou para o interior de Minas.
Óbvio que eu não me lembrava!
Adalberto: Ah, sim. Lembro, sim.
Ane: Então, ressuscitou. Veio fazer um trabalho aqui no Rio e resolveu me fazer uma visitinha. Foi ótimo.
Adalberto: Ah, que bom que foi bom para você. Agora, vamos lá comigo impedir que a Lu faça uma loucura.
Ane: Você sabe onde é?
Adalberto: Acho que sim. Eu já fui com ela à casa desse cara uma vez.
Ane: Está bem. Vou dispensar o Creonelson, tomar banho e, quando você passar aqui, eu já vou estar prontinha, te esperando.
Adalberto: Em vinte minutos eu chego aí.
Fui voando para a casa da Ane. Devo ter tomado várias multas de excesso de velocidade e ultrapassagem de sinal. Tudo por uma nobre causa.
Chegamos a tempo à casa do Clodowilson. Ela ainda não tinha chegado. Fizemos hora numa barraquinha de cachorro-quente. Eu até tinha voltado a sentir fome, mas estava com nojo. A vendedora, que chamava Djenanny, com dois ênes e ípsilon, era uma menina querida. Mas tinha um aspecto de porca.
Duas horas se passaram e a gente nem sentiu. Foi como se estivéssemos há quinze minutos ali. Estávamos tendo altos papos com a Djenanny. Ela contou cada coisa da vida da vizinhança, que até Deus duvida. Já éramos melhores amigos de infância dela.
De repente, ela começou a contar uma história que me soou um pouco familiar. Ela disse que um cara, que tinha largado uma mulher mais velha para ficar com ela, voltou atrás e largou ela para ficar com a mulher mais velha. Ela falou que estava com ódio dele, porque eles mal terminaram e ele já tinha ido ficar com a outra. Segundo ela, ele queria trocar de moto e sabia que a "otária" ia ajudá-lo a comprar uma nova. E afirmou que, se ele passasse ali com ela, ela ia jogar aquela panela inteira, com molho de cachorro-quente fervendo, em cima dele e dela. A Ane não parava de rir, mas eu fiquei pensativo.
Me afastei um pouco delas e liguei para a Lu.
Lu: Ou, Adal.
Agora, ela parecia feliz.
Adalberto: Lu, onde vocês está?
Lu: Estou aqui na rua do Clodowilson e estou te vendo. Quando eu estava saindo de casa, dei de cara com ele na portaria com um buquê de flores. Eu sabia que você ia vir para cá para não deixar eu matar o Clodowilson.
Eles estavam quase chegando à altura da barraquinha de cachorro-quente. Eu precisava impedir a Lu de cruzar com a ira da Djenanny.
Adalberto: Lu, o esgoto daqui da rua está vazando. Tem um monte de barata aqui. Ai, olha! Uma até subiu em mim. Corre!
E ela correu a tempo de evitar a queimadura de terceiro grau, de molho de cachorro-quente, que deformou o rosto do Clodowilson.
As meninas ficaram apavoradas. Fomos para a casa da Marjorie tentar espairecer. A Sara estava lá. O clima, que parecia bom, ficou melhor depois que contamos a nossa aventura.
Passamos o resto do dia conversando, bebendo e rindo. terminamos o Dia de Finados em grande estilo: celebrando a vida.
sábado, 3 de novembro de 2012
sábado, 27 de outubro de 2012
Lu vive emoções que dariam um capítulo de novela daqueles ou Salve Jorge!
Eu estava atrasado para o casamento da Paty, minha amiga do Segundo Grau, quando a Lu me ligou.
Lu: Adal, eu vou me suicidar.
Adalberto: Ai, Lu, não faz drama. Eu sei que você e as outras primas morrem de ciúmes das minhas amigas do Martins, mas eu não posso deixar de ir ao casamento de uma amiga.
Lu: Adal, é sério Elidnelson terminou comigo.
Adalberto: E daí? Ele é feio para caramba.
Lu: Eu sei mas ele tem dinheiro, né?
Adalberto: Lu, que coisa feia!
Lu: Adal, eu nunca tive a sorte de ter um namorado rico.
Adalberto: Já, sim. Você é que não lembra.
Lu: Mas esse é rico e me dá mesada. Tem coisa melhor do que isso? O meu salário fica limpinho só para mim. Com o dinheiro que ele me dava, eu pagava todas as contas. Já estava até pensando em parar de trabalhar.
Adalberto: Você é maluca. E ter que abaixar a cabeça para homem? Que mulher do século XXI é você?
Lu: Caguei pra mulher do século XXI. Eu quero é ganhar dinheiro sem ter que fazer esforço.
Adalberto: E ficar com Elidnelson não é um esforço para você?
Lu: Esforço, não. Caridade.
Adalberto: Então!
Lu: Mas Deus me recompensava por essa caridade. Você tem noção do último cheque que o Elidnelson me deu?
Adalberto: Tenho. Você me ajudou a pagar o conserto do meu carro.
Lu: Então, Adal. Vem aqui agora. Ele está lá embaixo pedindo o cordão que a avozinha deu para ele. Eu disse que vou me jogar junto com o cordão.
Adalberto: Por que isso, Lu?
Lu: Em vez de trazer uma recordação boa da vozinha dele, esse cordão vai fazer ele lembrar do meu suicídio. Vem logo para cá, para você ver eu me jogando.
Adalberto: Sua louca. Está falando sério?
Lu: Adal, eu vou me matar. O meu homem me deixou.
Adalberto: Eu estou indo aí. Me espera, então.
Lu: Está bem.
Eu sei que 95% dessa tentativa de suicídio era um drama da Lu. Mas os 5% de verdade é que fazem ter medo. Fui correndo para encontrar com ela ainda viva.
Não consegui estacionar na porta do prédio dela, porque todos os vizinhos estavam assistindo o escândalo que ela estava fazendo com o Elidnelson. Sabe, eu nunca fui com o cara dele, mas fiquei com pena da vergonha que a Lu estava fazendo o pobre coitado passar. Me meti na discussão.
Adalberto: Ô, Lu. Para de palhaçada. O cara só quer o cordão que a vozinha deu para ele. Ele não tem responsabilidade por nada que diz respeito a você, sua maluca!
Lu: Tem, sim. E você sabe que tem.
Adalberto: Eu? Eu não sei de nada. Bebeu cachaça?
Lu: Adal, eu vou me jogar daqui.
Adalberto: Que se jogar daí, o quê? Vamos nos jogar numa pista de dança, beber a noite toda...
Lu: Com que dinheiro. Eu gastei o meu dinheiro todo desse mês, contando com o ovo no rabo da galinha.
A Lu não disfarça que é interesseira. que coisa mais feia.
Adalberto: Amore, deixa eu te falar uma coisa. Sabe aquele meu amigo, que você cutucou no Facebook?
Lu: Aquele que já casou três vezes, em cinco filhos, mora no Flamengo, tem dois bulldogs franceses, casa em Cabo Frio, jet ski, uma Ferrari e gosta de fazer trilha.
Adalberto: Isso, o Soriolano! Ele disse que gostou de você.
Lu: Legal... Mas eu não gosto de fazer trilha.
Adalberto: E daí? Duvido que você seja completamente compatível com o Elidnelson. Só pela cara dele, eu já vejo que vocês não tem muito a ver.
Lu: Mas você sabe se ele vai se apaixonar por mim, vai querer namorar comigo, vai fazer o que o Elidnelson faz por mim?
Morri de vergonha de destacar ainda mais o lado interesseiro da Lu. Mas se tratava de um casa de lucro ou morte.
Adalberto: Claro que vai. Gata, o Soriolano tem bala. Confia em mim.
Lu: E como eu faço para encontrar com ele?
Adalberto: Ele vai ao casamento da Paty.
Mentira.
Lu: Então, eu vou com você, posso?
Adalberto: Claro.
Lu: Vou me arrumar. Me espera.
Adalberto: Então, joga o cordão do Elidnelson. Deixa ele ir embora.
Lu: Não. Só depois que eu tiver um feedback do Soriolano.
Eu tenho a chave da casa da Lu, então, enquanto ela se arrumava, sorrateiramente, peguei um cordão com com cara de cafona da década de 30, que ela deixou em cima da mesinha da sala, e fui correndo entregar para o Elidnelson. A essa altura, o povo que estava lá embaixo concentrado durante o escândalo, já havia se dispersado.
Quando saímos, a Lu estava tão focada no seu novo "projeto de vida", que nem sentiu falta do cordão do Elidnelson. Ufa!
Chegamos no fim do casamento da minha amiga. Uma pena. Pelo menos, tive a brilhante ideia de dizer que o Soriolano me passou um torpedo, dizendo que já tinha ido embora. A Lu ficou decepcionada, mas quando viu que a minha amiga ia jogar o buquê, foi correndo tentar pegá-lo. Mas não conseguiu.
A menina que buquê, no entanto, fez o favor de ostentar o seu namorado para toda a festa, enchendo-o de beijos, feliz e confiante na superstição de que, por ter conseguido tal feito, seria a próxima a subir ao altar.
Só que ela não imagina que isso fosse acontecer tão rápido. Eu estava cumprimentando os noivos, que não dei conta da Lu se atracando com o namorado da menina que pegou o buquê, atrás da imagem da São Jorge. O cara devia estar se achando o guerreiro, por ter conseguido dar um balão na namorada depois de uma cerimônia de casamento. Coitado, com São Jorge na área, não tem para ninguém
A baixaria ganhou um tom de humor, quando descobri que a tal menina que pegou o buquê era a atriz Nanda Costa, a protagonista da novela "Salve Jorge". Ela ficou em estado de choque, quando viu o seu namorado aos beijos com a Lu, atrás da imagem santa.
As donas-de-casa que estavam na igreja, fãs de Morena, personagem de Nanda, tomaram as dores da atriz e partiram para o ataque.
Até que a Lu não foi tão agredida. O alvo principal da mulherada foi o namorado da Nanda. Enquanto ele era espancado pela mulherada, eu só ouvia os gritos da atriz: Salve o Jorge! Salve o Jorge! Por um momento, achei que aquela era uma grande ação de marketing da novela. Tentei fazer um link da minha amiga Paty com a Glória Perez, mas, depois que o rosto do namorado da atriz começou a sair sangue e ela começou gritar: "Por favor, parem de bater no Jorge! O rosto dele está sangrando!", descobri que Jorge era o nome do cara. Caraca! Que coincidência!
Depois de expulsa do local, a Lu, humilhada, foi embora para casa. Eu fui com ela. Coitada, ela estava arrasada.
Lu: Eu quero apagar esse dia da minha vida. Fiquei sem o Elidnelson, sem o Soriolano e sem o namorado da Nanda Costa.
Adalberto: Sabia que a minha irmã é a nutricionista dela?
Lu: De quem?
Adalberto: Da Nanda Costa.
Lu: Sério? Eu vou falar para a Camila passar veneno para ela tomar.
Adalberto: Está maluca? A minha irmã adora ela. É mais fácil ela passar veneno para você tomar.
Lu: Ela não é doida...
E com a mesma astúcia que um mágico tira um coelho da cartola, a Lu me surpreendeu sacando o buquê do casamento da minha amiga, da sua bolsa.
Adalberto: Esse é o buquê?
Lu: Arram.
Adalberto: Lu, você roubou o buquê da Nanda Costa? Como é que foi isso?
Lu: Ninguém reparou. Foi antes da confusão. Eu tinha roubado o buquê e, depois, o namorado dela. O namorado ela recuperou, mas a sorte de ser a próxima a se casar, não.
Adalberto: Você é doida.
Lu: Eu sei. Por isso que você gosta de mim.
Adalberto: Pior que é mesmo.
Lu: Jura que não conta para a Camila? Ela vai querer que eu devolva para a pacientezinha. Eu não quero perder a minha sorte, primo.
Adalberto: Juro. Mas com uma condição: vamos para um bar encher a cara e esquecer esse dia famigerado. Pode ser?
Lu: Claro que não. vamos encher a cara para comemorar porque, em breve, o homem da minha vida vai aparecer e me pedir em casamento. Eu tenho um buquê de casamento em mãos, Adal!
Adalberto: Fechado!
Saímos, bebemos a noite inteira e, no fim do dia, por mais incrível que isso possa parecer, um mendigo bêbado, com cara de maluco, que estava sentado no chão, na esquina da rua, veio a nossa mesa na maior cara de pau e disse que ficou o tempo todo admirando a beleza da Lu. E, para completar, a pediu em casamento.
A Lu disse não para o mendigo, jogou o buquê no lixo e saiu sem nem pagar a conta. E eu fui atrás...
Lu: Adal, eu vou me suicidar.
Adalberto: Ai, Lu, não faz drama. Eu sei que você e as outras primas morrem de ciúmes das minhas amigas do Martins, mas eu não posso deixar de ir ao casamento de uma amiga.
Lu: Adal, é sério Elidnelson terminou comigo.
Adalberto: E daí? Ele é feio para caramba.
Lu: Eu sei mas ele tem dinheiro, né?
Adalberto: Lu, que coisa feia!
Lu: Adal, eu nunca tive a sorte de ter um namorado rico.
Adalberto: Já, sim. Você é que não lembra.
Lu: Mas esse é rico e me dá mesada. Tem coisa melhor do que isso? O meu salário fica limpinho só para mim. Com o dinheiro que ele me dava, eu pagava todas as contas. Já estava até pensando em parar de trabalhar.
Adalberto: Você é maluca. E ter que abaixar a cabeça para homem? Que mulher do século XXI é você?
Lu: Caguei pra mulher do século XXI. Eu quero é ganhar dinheiro sem ter que fazer esforço.
Adalberto: E ficar com Elidnelson não é um esforço para você?
Lu: Esforço, não. Caridade.
Adalberto: Então!
Lu: Mas Deus me recompensava por essa caridade. Você tem noção do último cheque que o Elidnelson me deu?
Adalberto: Tenho. Você me ajudou a pagar o conserto do meu carro.
Lu: Então, Adal. Vem aqui agora. Ele está lá embaixo pedindo o cordão que a avozinha deu para ele. Eu disse que vou me jogar junto com o cordão.
Adalberto: Por que isso, Lu?
Lu: Em vez de trazer uma recordação boa da vozinha dele, esse cordão vai fazer ele lembrar do meu suicídio. Vem logo para cá, para você ver eu me jogando.
Adalberto: Sua louca. Está falando sério?
Lu: Adal, eu vou me matar. O meu homem me deixou.
Adalberto: Eu estou indo aí. Me espera, então.
Lu: Está bem.
Eu sei que 95% dessa tentativa de suicídio era um drama da Lu. Mas os 5% de verdade é que fazem ter medo. Fui correndo para encontrar com ela ainda viva.
Não consegui estacionar na porta do prédio dela, porque todos os vizinhos estavam assistindo o escândalo que ela estava fazendo com o Elidnelson. Sabe, eu nunca fui com o cara dele, mas fiquei com pena da vergonha que a Lu estava fazendo o pobre coitado passar. Me meti na discussão.
Adalberto: Ô, Lu. Para de palhaçada. O cara só quer o cordão que a vozinha deu para ele. Ele não tem responsabilidade por nada que diz respeito a você, sua maluca!
Lu: Tem, sim. E você sabe que tem.
Adalberto: Eu? Eu não sei de nada. Bebeu cachaça?
Lu: Adal, eu vou me jogar daqui.
Adalberto: Que se jogar daí, o quê? Vamos nos jogar numa pista de dança, beber a noite toda...
Lu: Com que dinheiro. Eu gastei o meu dinheiro todo desse mês, contando com o ovo no rabo da galinha.
A Lu não disfarça que é interesseira. que coisa mais feia.
Adalberto: Amore, deixa eu te falar uma coisa. Sabe aquele meu amigo, que você cutucou no Facebook?
Lu: Aquele que já casou três vezes, em cinco filhos, mora no Flamengo, tem dois bulldogs franceses, casa em Cabo Frio, jet ski, uma Ferrari e gosta de fazer trilha.
Adalberto: Isso, o Soriolano! Ele disse que gostou de você.
Lu: Legal... Mas eu não gosto de fazer trilha.
Adalberto: E daí? Duvido que você seja completamente compatível com o Elidnelson. Só pela cara dele, eu já vejo que vocês não tem muito a ver.
Lu: Mas você sabe se ele vai se apaixonar por mim, vai querer namorar comigo, vai fazer o que o Elidnelson faz por mim?
Morri de vergonha de destacar ainda mais o lado interesseiro da Lu. Mas se tratava de um casa de lucro ou morte.
Adalberto: Claro que vai. Gata, o Soriolano tem bala. Confia em mim.
Lu: E como eu faço para encontrar com ele?
Adalberto: Ele vai ao casamento da Paty.
Mentira.
Lu: Então, eu vou com você, posso?
Adalberto: Claro.
Lu: Vou me arrumar. Me espera.
Adalberto: Então, joga o cordão do Elidnelson. Deixa ele ir embora.
Lu: Não. Só depois que eu tiver um feedback do Soriolano.
Eu tenho a chave da casa da Lu, então, enquanto ela se arrumava, sorrateiramente, peguei um cordão com com cara de cafona da década de 30, que ela deixou em cima da mesinha da sala, e fui correndo entregar para o Elidnelson. A essa altura, o povo que estava lá embaixo concentrado durante o escândalo, já havia se dispersado.
Quando saímos, a Lu estava tão focada no seu novo "projeto de vida", que nem sentiu falta do cordão do Elidnelson. Ufa!
Chegamos no fim do casamento da minha amiga. Uma pena. Pelo menos, tive a brilhante ideia de dizer que o Soriolano me passou um torpedo, dizendo que já tinha ido embora. A Lu ficou decepcionada, mas quando viu que a minha amiga ia jogar o buquê, foi correndo tentar pegá-lo. Mas não conseguiu.
A menina que buquê, no entanto, fez o favor de ostentar o seu namorado para toda a festa, enchendo-o de beijos, feliz e confiante na superstição de que, por ter conseguido tal feito, seria a próxima a subir ao altar.
Só que ela não imagina que isso fosse acontecer tão rápido. Eu estava cumprimentando os noivos, que não dei conta da Lu se atracando com o namorado da menina que pegou o buquê, atrás da imagem da São Jorge. O cara devia estar se achando o guerreiro, por ter conseguido dar um balão na namorada depois de uma cerimônia de casamento. Coitado, com São Jorge na área, não tem para ninguém
A baixaria ganhou um tom de humor, quando descobri que a tal menina que pegou o buquê era a atriz Nanda Costa, a protagonista da novela "Salve Jorge". Ela ficou em estado de choque, quando viu o seu namorado aos beijos com a Lu, atrás da imagem santa.
As donas-de-casa que estavam na igreja, fãs de Morena, personagem de Nanda, tomaram as dores da atriz e partiram para o ataque.
Até que a Lu não foi tão agredida. O alvo principal da mulherada foi o namorado da Nanda. Enquanto ele era espancado pela mulherada, eu só ouvia os gritos da atriz: Salve o Jorge! Salve o Jorge! Por um momento, achei que aquela era uma grande ação de marketing da novela. Tentei fazer um link da minha amiga Paty com a Glória Perez, mas, depois que o rosto do namorado da atriz começou a sair sangue e ela começou gritar: "Por favor, parem de bater no Jorge! O rosto dele está sangrando!", descobri que Jorge era o nome do cara. Caraca! Que coincidência!
Depois de expulsa do local, a Lu, humilhada, foi embora para casa. Eu fui com ela. Coitada, ela estava arrasada.
Lu: Eu quero apagar esse dia da minha vida. Fiquei sem o Elidnelson, sem o Soriolano e sem o namorado da Nanda Costa.
Adalberto: Sabia que a minha irmã é a nutricionista dela?
Lu: De quem?
Adalberto: Da Nanda Costa.
Lu: Sério? Eu vou falar para a Camila passar veneno para ela tomar.
Adalberto: Está maluca? A minha irmã adora ela. É mais fácil ela passar veneno para você tomar.
Lu: Ela não é doida...
E com a mesma astúcia que um mágico tira um coelho da cartola, a Lu me surpreendeu sacando o buquê do casamento da minha amiga, da sua bolsa.
Adalberto: Esse é o buquê?
Lu: Arram.
Adalberto: Lu, você roubou o buquê da Nanda Costa? Como é que foi isso?
Lu: Ninguém reparou. Foi antes da confusão. Eu tinha roubado o buquê e, depois, o namorado dela. O namorado ela recuperou, mas a sorte de ser a próxima a se casar, não.
Adalberto: Você é doida.
Lu: Eu sei. Por isso que você gosta de mim.
Adalberto: Pior que é mesmo.
Lu: Jura que não conta para a Camila? Ela vai querer que eu devolva para a pacientezinha. Eu não quero perder a minha sorte, primo.
Adalberto: Juro. Mas com uma condição: vamos para um bar encher a cara e esquecer esse dia famigerado. Pode ser?
Lu: Claro que não. vamos encher a cara para comemorar porque, em breve, o homem da minha vida vai aparecer e me pedir em casamento. Eu tenho um buquê de casamento em mãos, Adal!
Adalberto: Fechado!
Saímos, bebemos a noite inteira e, no fim do dia, por mais incrível que isso possa parecer, um mendigo bêbado, com cara de maluco, que estava sentado no chão, na esquina da rua, veio a nossa mesa na maior cara de pau e disse que ficou o tempo todo admirando a beleza da Lu. E, para completar, a pediu em casamento.
A Lu disse não para o mendigo, jogou o buquê no lixo e saiu sem nem pagar a conta. E eu fui atrás...
sábado, 20 de outubro de 2012
No Dia das Crianças é para ser criança
Na última sexta-feira, foi Dia das Crianças e eu ganhei um tablet da minha mãe e do meu pai. Na minha família é assim: os filhos não deixam de ser criança quando casam, quando fazem filhos nem quando passam para a terceira idade. Portanto, não havia nada de errado com o fato de eu ter ganhado presente na data. O problema foi que as minhas primas interromperam a minha diversão. A primeira foi a Sara.
Sara: Você não vai vir aqui ver os seus afilhados, não?
Adalberto: Lindona, eu já fui aí, não tinha ninguém em casa. Deixei os presentes deles na portaria. O porteiro não entregou?
Sara: Entregou. Mas acho que você tem que vir aqui dar um beijinho nos trigêmeos.
Adalberto: Mas eu já fui. Se eles não estavam aí na hora que eu fui, o problema é deles.
Não sei o que acontece, mas no Dia das Crianças, eu geralmente fico meio infantil.
Sara: Que horror, Adal. Um homem de barba como você, falando uma coisa dessas...
Adalberto: Ai, Sara, deixa eu brincar com o meu joguinho!
Sara: Tchau, seu chato!
E voltei a ficar como um pinto no lixo, brincando com a minha mais nova aquisição. E, em poucos minutos depois, fui interrompido pela Ane.
Ane: Vamos fazer alguma coisa?
Adalberto: Não, obrigado.
Ane: Que grosseria.
Adalberto: Não é grosseria. Eu só não quero fazer nada.
Ane: Por quê? O que você está fazendo?
Adalberto: Droga! Acabei de perder um jogo aqui do meu tablet, por causa de você, sua chata!
Ane: Meu Deus! Eu só queria te chamar para fazer alguma coisa legal no feriado, mas tudo bem. Tchau, seu ignorante.
Adalberto: Ah, vai lamber sabão!
E reiniciei o meu joguinho, até que, depois de enfrentar o dragão e passar para a terceira fase, foi a vez da Marjorie.
Marjorie: Adal, eu já estou sabendo de tudo. Larga, agora, esse tablet e vamos lanchar juntos em algum lugar.
Adalberto: É ruim, hein... Não vou, não vou, não vou!
Marjorie: Para de criancice. Você já não tem mais idade para isso!
Adalberto: Me deixa. Eu não quero fazer nada. Eu só quero ficar em casa.
Marjorie: Tudo bem. Já sei o que eu vou fazer.
Adalberto: Parabéns. Tchau!
E, quando eu ia retomar o meu joguinho, a campainha toca. Era a Lu.
Lu: Oi, Adal. Esse aqui é o Cauê, meu mais novo namoradinho.
E o mais novo namoradinho da Lu de fato era bem novo. Eu não dava mais de 16 anos para aquele menino. Mas fiquei sem graça de perguntar.
Adalberto: Entra, gente.
Lu: A gente vai ficar só um pouquinho.
Graças a Deus!
Adalberto: Ah, não. Por quê?
Lu: Vamos à casa de uns amigos do Cauê. Como aqui é caminho, resolvi parar para te apresentar a ele.
Péssima ideia!
Adalberto: Ah, legal.
O pior é que o garoto parecia tão maduro, que eu fiquei sem graça de estar com um tablet, brincando de joguinho na frente dele.
Cauê: Adal, eu dei um tablet igualzinho a esse de presente de Dia das Crianças para o meu irmãozinho.
Será que ele estava me provocando? Será que ele sabia que eu tinha ganhado aquele tablet também pelo Dia das Crianças? Será que a Lu estava por trás daquilo? E as outras primas? Será que era tudo uma armação para mim?
Adalberto: Quantos anos tem o seu irmão?
Cauê: Cinco.
Queria virar uma ema e afundar a minha cabeça no chão. Eu tenho seis vezes a idade do irmãozinho do Cauê, que é mais de uma década mais novo do que eu.
Lu: Você já tinha isso, Adal?
Adalberto: O quê?
Lu: Esse joguinho.
Adalberto: Isso não é um joguinho. Muita gente adulta tem.
Me defendi.
Cauê: Parece novo a seu.
Adalberto: Não. Comprei há muito tempo.
Lu: E aquela caixa ali em cima da mesa?
Adalberto: Ah, sabe como eu sou, né? Metódico até dizer chega. Chego a ser chato. Depois que uso, guardo na caixa, direitinho, como veio da loja. Dentro do plástico-bolha e tudo.
Lu: Como assim? Mas você nem estourou o plástico-bolha. Acabou aquela compulsão por estourar plástico-bolha? Você não perdoava nem o plástico-bolha de uma bateria de celular, que deve ter só cinco bolhas para estourar. Ah, Adal, eu estou te desconhecendo.
De repente, minha mãe irrompe pela minha casa. Esse negócio da minha família inteira ter a chave do meu apartamento vai acabar.
Neide: Me dá esse tablet agora.
Adalberto: Por que, mãe?
Neide: Você não entregou os presentes dos seus afilhados em mãos, as pessoas te ligam e você não dá nem atenção, trata mal... Olha, da mesma forma que eu te dei esse tablet de Dia das Crianças, eu te tomo, hein...
Meu Deus, que vergonha! Afundar a cabeça no chão já não era mais suficiente. Eu queria me matar.
Adalberto: Mãe.
Neide: Mãe, não. Eu achei que eu tinha te dado um negócio para te ajudar no trabalho. Não para te transformar numa criança. Me dá isso aqui.
E ela tomou o tablet da minha mão e saiu batendo porta. Eu chorei copiosamente, como uma criancinha de cinco anos. Talvez, como o irmãozinho do Cauê faria, se a mãe dele agisse igual a minha.
Cauê: Não fica assim, não, Adal. Vamos fazer o seguinte: eu tenho mesmo que voltar para casa, porque, agora que me dei conta que esqueci minha carteira de motorista...
Então, ele tinha mais de 16 anos...
Cauê: Então, a gente te leva com a gente e você fica lá jogando com o meu irmão. Ele vai adorar.
Lu: Ah, pelo amor de Deus, gente! Como assim?
Adalberto: Como assim, "como assim", Lu? Eu gostei da proposta. Eu vou, sim!
E passei a tarde inteira jogando com o irmãozinho do Cauê. À vezes, brigávamos, porque ele tentava roubar de mim, mas, apesar disso, eu gostei muito desse Dia das Crianças. Só fui embora, porque e mãe dele não deixou mais.
Combinamos outra disputa para hoje, às duas horas da tarde. Mas, engraçado, não acha mais a menor graça em usar o tablet para ficar brincando de joguinho. Acho que o meu espírito infantil só dura mesmo no Dia das Crianças.
Vou ligar para desmarcar com o irmãozinho do Cauê. Ou convidá-lo para ir comigo à exposição que acabou de entrar em cartaz no CCBB. Boa ideia! Será que a mãe dele deixa?
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Vida saudável de Marjorie acaba com o fim de namoro ou Tudo que é ruim dura pouco
Há um mês, a Marjorie começou a namorar um triatleta. Hoje, ela me ligou para comentar o término do relacionamento.
Marjorie: Eu sei que o Auzeciso é legal. Mas eu sou muito mais.
Adalberto: E por que acabou?
Marjorie: Adal, ele só pensa em correr, nadar e pedalar.
Adalberto: É o que se pode esperar de um triatleta, ué.
Marjorie: Eu achei que ia me acostumar a essa vida. Mas tem várias outras coisas no pacote.
Adalberto: O quê?
Marjorie: Ah, por ser triatleta, ele vive fazendo dieta, dorme cedo, não bebe e não fuma.
Adalberto: O seu oposto.
Marjorie: Total. Se ele ainda dissesse que queria casar comigo, eu até aguentaria. Mas ele parece que está comigo para me fazer de personal acompanhante, sabe?
Adalberto: Jura?
Marjorie: Arram. Era eu que arrumava a mochila dele, eu que colocava água na garrafinha, eu que o acordava de manhã, eu que o ajudava a se alongar, eu que preparava aquelas comidinhas ruins com gordura zero, eu que lavava as roupas esportivas dele e ainda tinha que acompanhá-lo no triatlo. Foi demais para mim.
Adalberto: E como você fez para terminar com ele?
Marjorie: Pedi uma pizza portuguesa para nós dois, ontem, à noite.
Adalberto: E ele?
Marjorie: Ficou irado, me chamou de todos os nomes e saiu da minha casa batendo porta.
Adalberto: Por que isso?
Marjorie: Ele tinha um passeio ciclístico no dia seguinte e não queria comer nada pesado.
Adalberto: Pedisse uma pizza de rúcula com tomate seco.
Marjorie: Só se fosse espacial, sem a massa.
Adalberto: Mas pizza de rúcula com tomate seco sem massa não é pizza. É salada.
Marjorie: Eu sei. É só isso que ele come na vida dele. Ah, e soja. Muita soja.
Adalberto: Ele já te ligou depois desse episódio?
Marjorie: Não. Eu liguei para ele, disse um monte e falei para ele ir procurar uma preparadora física.
Adalberto: E agora?
Marjorie: Agora eu quero descansar. Esse relacionamento me deixou com muita preguiça.
Adalberto: Só isso?
Marjorie: Ai, sei lá, Adal. Também quero sair para dançar sem ter hora para ir embora, encher a cara e, depois, dormir. Mas dormir muito. Sem hora para acordar. Me acompanha?
Adalberto: É uma...
Marjorie: Para onde vamos, então?
Adalberto: Jojô, me fala uma coisa: você devolveu o aparelho de DVDokê para o Auzeciso?
Marjorie: Não. Por quê?
Adalberto: Que tal chamarmos as meninas e fazermos uma Night do Karaokê Derrota, como nos velhos tempos?
Marjorie: Ótima ideia, primo. Vou ligar agora para Ane, Lu e Sara. Chamo mais alguém?
Adalberto: Só quero vocês: as protagonistas da minha vida.
Marjorie: Assim que eu gosto.
Adalberto: Enquanto isso, vou à rua comprar uma coisinhas para gente comer.
Marjorie: Traz uma pizza, Adal.
Adalberto: Só se você chamar o Auzeciso.
Marjorie: Você não vale nada, garoto.
Adalberto: Eu sei que não.
Comemos muito, enchemos a cara e cantamos muito. Até a Sara, que não bebia há anos, resolveu ficar de pilequinho e soltou a franga. Acordei agora cheio de ressaca. Mas feliz. Nesse um mês que a Marjorie namorou o Auzeciso, eu senti muito a falta dela nas nossas farras. Ainda bem que tudo que é ruim dura pouco.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Concurso Perna Carioca 2012 acaba em perseguição de filme... Classe B
A Lu me ligou anteontem esbaforida. Fiquei
preocupado. Achei que alguma coisa de muito grave tinha acontecido.
Adalberto: Você está bem?
Lu: Mais ou menos. Só você
pode me ajudar, primo.
Medo.
Adalberto: Fala, amore.
Lu: O meu relacionamento não
vai nada bem.
Adalberto: Ué, você está namorando
alguém? Não sabia.
Lu: O Edineido, Adal. Eu te apresentei.
Adalberto: Mas você disse que usava
bermuda larga, deixando o cofrinho à mostra, andava gingando e te chamava de “mermão”.
Isso não está mais te incomodando?
Lu: Claro que está.
Adalberto: Então! Já vai em boa
hora.
Lu: Adal, o Edineido é o que eu tenho para hoje... Para
amanhã, para sexta-feira, para sábado... Até eu arrumar alguém melhor.
Adalberto: E o que você quer de
mim?
Lu: A Simone vai participar do Concurso Perna Carioca 2012.
Adalberto: Ih, bem lembrado. Ela me
falou que ia, sim. É amanhã, né?
Lu: Pois é, Adal. Esse ano o concurso vai
premiar a 1º lugar com uma viagem para Porto
de Galinhas. Eu tenho certeza que ela não vai. Ela sempre dá para alguém da
família.
Adalberto: E esse ano, se ela
ganhar, ela vai dar para mim.
Lu: Na, na, ni, na, não!
Quer dizer, você vai mesmo querer ir? Eu soube que lá nem está tão legal
assim...
Adalberto: Em Porto de Galinhas? Está de
sacanagem com a minha cara, né? Porto
de Galinhas é incrível o ano
todo, meu bem.
Lu: Adal, mas eu preciso salvar o
meu relacionamento. Eu deixei a página de um site de relacionamento aberta lá
em casa e o Edineido viu.
Adalberto: Esse cara, além de te
chamar de “mermão”, está mexendo nas suas coisas sem a sua autorização?
Lu: Não. Eu autorizei. Ele
queria ver o e-mail dele e eu deixei. Só me esqueci que o computador estava
ligado e com a página do site aberta.
Adalberto: E aí?
Lu: Ele viu tudo. Me chamou
de vagabunda para baixo.
Adalberto: Jura?
Lu: Pô! Se eu te contar...
Adalberto: Melhor não.
Lu: Adal, me ajuda. Para salvar a
minha relação, eu disse que já tinha comprado uma viagem para nós dois.
Adalberto: O como é que você já
conta com o ovo na rabo da galinha? Sabe se a Simone vai ganhar?
Lu: Ela ganha todo ano.
Adalberto: E se ela não me der o
prêmio? Desistir, mudar de ideia, hein?
Lu: Até parece. Se ela te
prometeu, ela vai te dar. Aliás, ela te deve isso há muito tempo. Você sempre
elogiou as pernas dela.
Adalberto: Viu como eu não estava
enganado? Ela vive ganhando o 1º lugar do Perna
de Carioca.
Lu: Adal, eu preciso ir no teu
lugar.
Adalberto: Pô, Lu, eu precisava relaxar.
Lu: Vai para um spa, tira
uns dias de folga e fica na casa da tia Neide,
medita, sei lá, tem tanta coisa para você fazer...
Adalberto: E você? Não pode arcar
com o que você disse?
Lu: Não. Esse mês eu estou
dura. Ser madrinha da filha da Sara foi uma das piores coisas que
aconteceu na minha vida. Já comecei a pagar a primeira prestação do empréstimo
que eu fiz para ajudar na festa.
Adalberto: Eu também peguei
empréstimo para ajudar na festa, esqueceu?
Lu: Não. Mas eu estou com o
meu relacionamento por um fio, eu fico um saco quando fico sem homem e você é o
que mais sofre com isso.
Realmente, a Lu, quando não tem um homem
para regar a sua plantinha, fica insuportável. E eu sou um dos que mais sofre
com as variações de humor dela. Ela me liga de cinco em cinco minutos para
chorar pitangas.
Cedi. Mas fiz uma
condição. Nada nessa vida pode ser tão fácil.
Adalberto: Olha, eu vou te dar.
Mas, em troca, quero um saco de Serenata
de Amor.
Lu: Te entrego amanhã. Você
vai no concurso, né?
Adalberto: Claro. Vou prestigiar
minha prima.
Lu: Hum, bobalhão! Se eu não
tivesse interesse na vitória dela, ia torcer para ela cair no chão e ficar com
a perna toda roxa.
Adalberto: Para com esse ciúme
bobo! Aliás, você, Ane, Sara e Marjorie têm que entender que eu tenho outras
primas também.
Lu: Mas nós somos as
favoritas. E, do grupo, eu sou a que tem destaque no teu coração.
Adalberto: Ah, eu não sabia...
Lu: Cachorro!
Cheguei com uma hora de
antecedência ao concurso. Não aguentava mais a ansiedade da Lu... A minha prima Simone estava linda. Foi aplaudida de pé. Ela
era de longe a dona das pernas mais bonitas do concurso. Os anos passam e ela
continua parecendo que está de meia-calça.
Para a minha triste
surpresa e ira da Lu, a
minha prima ficou em segundo lugar no concurso. E ganhou duas fantasias para
desfilar no carnaval do ano que vem pela Beija-Flor.
A menina, que ficou em terceiro lugar, ganhou um ursão daqueles que só têm a
função de ocupar espaço em cima de uma cama.
Lu: Caraca, e agora?
Adalberto: Como é que pode a minha
prima perdeu para aquela garota da perna arcada?
Lu: Adal, me ajuda! O que eu faço
com o Edineido?
Adalberto: Diz que você ficou
menstruada e não vai poder viajar. E em troca, sugere de desfilar no carnaval.
Lu: Adal, isso não é o samba do
crioulo doido, não. É a minha relação que está em jogo. De mais a mais, eu ia
agendar a minha viagem para amanhã. E ele sabe que eu não estou mais
menstruada. Eu estava na semana passada.
Adalberto: Lu, eu te falei para não contar
com o ovo...
Lu: Adalberto, cala a boca!
Adalberto: Com certeza. Porque se
eu falar mais alguma coisa, vou te mandar para um lugar que você não vai
gostar. Bom, vou ali dar parabéns para a minha prima.
Lu: Parabéns? Ele merece
levar um tapa na cara bem dado.
Ignorei esse comentário
dela, peguei o meu saco de Serenata
de Amor e deixei a Lu sozinha.
Minha prima estava
recebendo os cumprimentos de vários amigos, parentes e fãs indignados com o 2º
lugar.
Adalberto: Ficou chateada?
Simone: Claro que não. Com a
minha idade, esse segundo lugar vale muito. Eu já não sou mais uma menina. Não
tenho mais vinte e poucos. Nem trinta e poucos. Eu tenho quarenta e...
Adalberto: Abafa.
Simone: Só
não gostei de você ficar sem a sua viagem.
Sem a viagem eu já iria
ficar mesmo...
Adalberto: Mas vou desfilar no
carnaval do ano que vem pela Beija-Flor!
Simone: Ah, vai mesmo! São suas
as fantasias. Leva quem você quiser.
Adalberto: Obrigado.
Simone: O pessoal está a fim de
comer alguma coisa na Cobal do
Humaitá. Vamos dar um pulinho lá?
Adalberto: Claro. Só vou pegar o
meu carro, que eu deixei a quilômetros daqui para evitar de pagar o
estacionamento caro, e encontro e vocês lá.
Simone: Combinado.
Quando eu estava entrando
no meu carro, vi que a dona da perna arcada desceu de um táxi na esquina
em que eu estava e, logo em seguida, um carro chegou ao local para buscá-la.
Era o Gilmar Barreto. O
dono do Concurso Perna Carioca!
Fui atrás do filho da mãe.
E acho que ele desconfiou de mim. Ou não. De repente, pensou que era tentativa
de assalto. Eu sei é que, quando ele percebeu que o meu carro o seguia, ele
disparou. E eu fui atrás. Parecia perseguição de filme policial. Eu estava me
sentindo o cara. Costurando no trânsito como ninguém, dando altos
cavalinhos-de-pau, tirando a maior onda... Até que eu bati num poste e lembrei
que o seguro do meu carro estava vencido. Aí foi que eu me enfureci. E
incorporei o “tira da pesada”. Fiz sinal para um táxi, dei um soco na cara do
motorista, que ficou desacordado, tomei a condução do veículo e voltei a
protagonizar o meu filme de ação.
Foram várias as manobras
mirabolantes e as cantadas de pneu.Tudo para não ter que aturar a carência
insuportável da Lu quando fica solteira.
De repente e sem nenhum
por que, o carro do Gilmar parou. Nós estávamos numa pista livre,
não tinha ninguém na nossa frente. Concluí que ele estava se rendendo, com medo
de mim. E me achei o cara mais incrível do mundo, o pica das galáxias. Fui até
ele.
Adalberto: Desistiu de fugir?
Gilmar: Não. A gasolina acabou.
Mesmo assim, continuei me
achando o cara.
Adalberto: Agora entendi por que
ela ganhou o Perna Carioca 2012...
Gilmar: Cala a boca!
Adalberto: Você sabe que eu posso
contar para todo mundo da relação de vocês dois?
Gilmar: O que você quer?
Adalberto: A viagem para Porto de Galinhas e o conserto do meu carro. E eu fico
de bico fechado.
Gilmar: Só isso?
Adalberto: Ué, não é muito?
Ele riu e eu fiquei sem
graça.
Ele me entregou um
envelope, as passagens e a reserva do hotel, que a perna arcada tinha ganhado e
me deu um cheque bem gordo para eu consertar o meu carro. Ia sobrar dinheiro
para eu ir para Porto de
Galinhas com a Lu e o Edineido.
Saí no lucro! Yes! Minha história já podia acabar ali.
Gilmar: Se precisar de mais
dinheiro, me apresenta a nota fiscal do serviço que eu te reembolso.
Ele falou isso, porque
sabia que não ia faltar.
Adalberto: Está bem. Obrigadão, Gilmar.
Por pouco, não mandei um
“te amo” para ele.
Voltei para o táxi feliz
da vida, me achando o todo poderoso do filme policial que eu criei. Mas, a essa
altura, o taxista já tinha acordado e estava furioso. Ele me enfiou a porrada e
levou com ele o prêmio da perna arcada, o cheque que o Gilmar me deu e o meu saco de Serenata de Amor.
Eu queria me matar. Mas
não passava nenhum carro àquela hora para eu me jogar na frente. Resolvi voltar
para casa, depois de quase ficar desidratado de tanto chorar.
Agora, tenho que pagar o
conserto do carro e aturar a carência da Lu.
Saí no prejuízo.
sábado, 29 de setembro de 2012
Festa de aniversário dos trigêmeos da Sara acaba num lugar bem escondidinho
Há mais ou menos um mês atrás, a Sara se deu conta de que faltava muito pouco para o aniversário dos trigêmeos e de que nada havia sido feito até então. Ela veio até a minha casa me cobrar atitude, como se eu fosse o pai das crianças.
Sara: Em caso da falta de um pai, é o padrinho que assume a responsabilidade.
Adalberto: Mas os seus filhos têm um pai, que, por sinal, dorme todo dia ao seu lado, na cama. Por que você não cobra atitude do Oswaldo?
Sara: Esquece o Oswaldo, Adal. O pai para essas coisas é você.
Adalberto: E o que você quer que eu faça?
Sara: Que você me ajude com os preparativos da festa das crianças, ué. Falta um mês.
Adalberto: Lindona, vamos fazer o seguinte: a Ane trabalha para o pai e tem mais flexibilidade em tirar dias de folga. Vai agilizando as coisas com ela que, daqui a dez dias, vencem as minhas férias e eu vou ter todo o tempo do mundo para te ajudar. Está bom assim?
Sara: Perfeito.
Perfeito nada. Essa foi a maior merda que eu fiz na minha vida. A Ane, viajandona do jeito que é, daquelas que acredita em qualquer coisa que falam para ela, fez a cabeça da Sara para fazer uma superprodução para os trigêmeos, porque já que o mundo vai acabar no dia 21 de dezembro de 2012, conforme o calendário maia, essa seria a única festa de aniversário que eles vão ter.
Dez dias depois, fui me encontrar com elas para ajudar nos preparativos.
Adalberto: E aí, meninas?
Ane: Tudo certo, Adal.
Medo.
Ane: Não precisamos de você mais para nada.
Sara: Como não? E a conta?
Ane: Ah, verdade. Só para pagara conta.
Adalberto: Mas eu vou pagar tudo sozinho?
Ane: Claro! Padrinho é para isso.
Sara: Mentira, Adal. Ela está querendo te assustar. Você só precisa me dar um milhão.
Eu ri porque, sinceramente, achei que ela estava de brincadeira. Um milhão é algo completamente fora da minha realidade, e que, mesmo trabalhando a vida toda, eu jamais conseguiria juntar isso. E ela sabia muito bem disso.
Ane: Está rindo de quê? É sério, Adal.
Adalberto: Como assim sério? Um milhão eu só conseguiria entrando para o Big Brother Brasil.
Ane: Ah, mais não ia mesmo. Insuportável do jeito que você é? Iam te tirar na primeira semana.
Adalberto: Então, pronto. Nem entrando para a casa do Big Brother Brasil eu conseguiria um milhão. Sara, isso é brincadeira, né?
Sara: Não, Adal. É sério. A conta ficou em dez milhões. Dividimos entre mim, você, Ane, Oswaldo, Marjorie, Lu, tia Neide, tio Beto, Camila e Dudu.
Adalberto: Como assim? As pessoas já sabem disso?
Sara: No caso... Não.
Adalberto: Sara, que loucura é essa? Por que você fez isso? Você está usando droga?
Sara: Adal, o mundo vai acabar no dia 21 de dezembro. Essa vai ser a única festa que eu vou poder fazer para os meus filhos.
Adalberto: Quem falou isso?
Ane: A Ane.
Adalberto: Ane, que loucura é essa?!
Ane: Alto lá! loucura, não! Isso é calendário maia. Filme "2012". Você não viu, não?
Adalberto: Não! Eu prefiro nem ver essas baboseiras. Não acredito nessas coisas. O homem não é Deus para dizer quando o mundo vai acabar. Sara, me admira você, que é tão temente a Deus, acreditar numa loucura dessas?
Sara: Ah, Adal, desculpa.
Adalberto: Desculpa, não. Você tem um milhão de reais na conta? Responde!
Sara: Não.
Adalberto: E você, Ane? Tem?
Ane: Não. Mas o meu pai tem. E ele pode me emprestar.
Adalberto: Ah, legal isso. O meu pai não tem. E mesmo se ele tivesse, ele não ia poder me emprestar, porque ele também vai ter que pagar um milhão para esse capricho de vocês duas. Olha, a pior coisa que eu fiz na minha vida foi pedir para a Sara resolver os preparativos dessa festa contigo. Você é doida! Aliás, vocês duas são doidas!
Sara: O pior é que não tem nem como voltar atrás, Adal. Já fechei com todo mundo.
Adalberto: Todo mundo quem? Com quem você fechou essa palhaçada?
Ane: Com a Xuxa, a Angélica, o Luciano Huck, o Faustão, o Serginho Groissman, a Ana Maria Braga, a Mara Maravilha, a Eliana, a Mariane, a Paty Beijo, a Maísa, o Rodrigo Faro, o Datena, o Ratinho, o Leão, o Leão Lobo, a Sônia Abrão, a Hebe, a Fátima Bernardes, o William Bonner, a Patrícia Poeta, a Ana Paula Padrão, o Didi, aliás, a turma inteira do Didi, o Bozo, o Topetão... Ai, é tanta gente... Cansei. Fala para ele o resto, Sara.
Adalberto: Não, não precisa! Não precisa falar o resto. Eu já vi que vocês, realmente, são duas loucas. Eu vou ligar para um hospício agora e pedir para virem buscar vocês agora! Vocês têm que ser amarradas com camisa de força! Como é que você faz uma coisa dessas, Sara?
Sara: Adal, você sabe que eu nunca gostei de nenhuma apresentadora infantil. Eu fui a todos os programas e nenhuma nunca me chamou para brincar.
Adalberto: Então, pronto! Você chamou um monte delas por quê?
Sara: Porque só pagando que elas não vão me desprezar. Só assim elas vão olhar para mim, falar comigo.
Caramba, fiquei com uma pena da Sara. A loucura dela não estava embasada no calendário maia. Mas num trauma de infância.
Adalberto: Ô, Sarita, vem cá.
Dei um abraço apertado nela e não consegui falar mais nada. E com base no calendário maia, no trauma da Sara e outros tipos de chantagem emocional, ajudei-as a contar para o resto da família sobre essa bomba.
E não adiantou nada. Todos quiseram matar a Sara. Até a Ane já estava meio arrependida da merda que tinha feito. Mas, agora, eu é que estava empenhado nessa causa. Eu sei o que é um trauma de infância. Eu não como ave, porque, quando era bem novinho, vi minha tia matando uma galinha para comer. Todo mundo me sacaneia por causa disso, insistem para eu experimentar comer, mas eu não consigo. É mais forte do que eu. Nem se me pagassem dez milhões eu comeria uma coxinha de galinha.
Todos pedimos empréstimos na esperança de que o mundo de fato acabasse no dia 21 de dezembro para não ter que passar a vida inteira pagando prestação. E, uma semana antes, eu, Ane, Lu e Marjorie fomo à casa da Sara para saber o que ela precisava falar com a gente, que era tão urgente.
Sara: Eu mandei fazer essas roupas aqui e nós vamos resgatar o Adalboy e as insuperáveis.
Adalboy e as insuperáveis era o nosso grupo musical. Coisa de criança, mas a gente até que levava a sério. Eu tinha certeza que íamos ficar famosos e viver da música. E as meninas também. A Sandy e o Júnior, que eram mais ou menos da nossa idade, cantavam pior e tinham um repertório bem mais fraco do que o nosso. Não era possível que a gente não ia fazer sucesso. Eu compus mais de 50 músicas. Tudo bem... Tinham umas que só tinham dois versos e vários lá, lá, lá, lá, lá. Mas eram músicas de qualidade. Se fosse hoje em dia, na era do lê, lê, lê, oi, oi, oi, tchu, tchá e todas as outras músicas monossilábicas que fazem o maior sucesso, a gente estaria bombando.
Adalberto: Claro! Nada melhor do que resgatar o Adalboy e as insuperáveis nesse momento! Um monte de gente bacana ia para festa dos trigêmeos.
Lu: Vai que o o Faustão chame a gente para se apresentar no programa dele?
Ane: E a gente explodindo com os nossos hits monossilábicos para todo o Brasil!
Marjorie: Bom, pelo menos, a gente vai ficar ficar rico e ter condições de pagar esses dez milhões.
Adalberto: Lógico! E o mundo não ia nem precisar acabar mais. Nunca mais! Sara, eu adorei essa ideia. Aliás, adorei tudo. Você a a Ane mandaram muito bem em organizar essa festa. Eu amo vocês!
O dia 27 de setembro caiu numa quinta-feira. E a Sara fez questão de comemorar na data.
A Angélica foi me buscar de táxi em casa, e eu achei que isso fizesse parte de alguma apresentação. Quem sabe o Adalboy e as insuperáveis não iam dar uma palinha com o Vou de táxi? Várias coisas se passaram pela minha cabeça, mas eu estava tão nervoso, ansioso e temeroso que não perguntei nada.
Só uma observação: a pinta da Angélica parece maior e mais feia. Prefiro pela televisão.
Cheguei na mesma hora que as meninas. Ane, Marjorie e Lu chegaram em táxis dirigidos, respectivamente, por Mara Maravilha, Eliana e Xuxa. Paty Beijo e Mariane eram as hostess. Achei estranho mas chegar à porta da HSBC Arena me embrulhou o estômago. Eu tinha ensaiado tudo com as meninas, mas ainda assim estava inseguro. Não é a Ivete Sangalo que diz que é normal sentir um friozinho na barriga antes de se apresentar? Artista que é artista sente isso.
Quando entramos, uma coisa me saltou aos olhos: os convidados eram xexelentas, mal vestidos e o pior: fediam mais do que gambá. E o curioso foi ver os outros apresentadores e artistas, servindo a eles.
Adalberto: Sara, o que é que Luciano Huck está fazendo com aquela bandeja cheia de croquete?
Sara: Servindo, ué. Eu contratei ele para isso. Não só ele como todas as outras celebridades. Celebridade hoje aqui somos nós.
Adalberto: E quem são essas pessoas imundas:
Sara: O povo que passa fome e fica zanzando pelas ruas, atrás de saquinho de Come e Damião. Eu quero essa gente de barriga cheia. Hoje, eles vão comer muito. E pelas mãos de quem tem muito. Olha lá que lindo o Faustão servindo quibe naquela mesa! Adoro!
Adalberto: Meus Deus. Como você é cruel.
Sara: Cruel nada, primo. Isso é inversão de valores.
Adalberto: É...
Minha mãe ficou inconformada ao ver o rei Roberto Carlos, recolhendo as latinhas que aquela gente sem educação jogava no chão. E tomou um baita esporro da Sara, porque estava ajudando o pobre coitado no serviço.
Sara: Tia Neide. Para agora de recolher latinha. O Roberto Carlos, o Fábio Júnior e o Chico Buarque estão aqui para isso. O seu lugar é lá em cima! Sentada no camarote. Vai para lá, anda! A nossa apresentação já vai começar.
A minha camareira foi a Marina Lima. Confesso que fiquei meio sem graça por ela. Eu sinto vergonha alheia, não tem jeito.
Era muito artista trabalhando naquela festa. Eu estava assutado. O povo da Tropicália cuidando do som, os Novos Baianos, da luz. Essa gente toda iria me ver cantando! Senti uma responsabilidade e uma dor de barriga fortíssimas.
E na hora do show, quando eu vinha descendo de uma corda, tipo uma tirolesa, que me levava ao centro do palco, me caguei lá do alto e sujei as primas, que estavam embaixo, fazendo a coreografia da primeira música. Todos riram copiosamente. Principalmente, os artistas. O Jô Soares quase morreu de tanto que achou graça da nossa cara. O cara ficou sem ar!
A Sara disse que não era para parar. E continuamos assim mesmo. Todos sujos de merda. O cheiro nem incomodou muito. No lugar já imperava uma fedentina anterior a minha cagada.
O curioso é que parecia que a gente estava agrandando aos xexelentos. Até que acabou a comida. A Sara se preocupou tanto em convidar a nata da classe artística, que não pensou na quantidade certa de comida. Essa gente come...
O Roberto Carlos parou de ter trabalho. Os xexelentos pegavam as latinhas jogadas no chão e tacavam na gente. isso, claro, acompanhado por muitas vaias. A Sara queria continuar. Eu continuei com o show até que fui atingido na altura do supercílio, que sangrava incessantemente. Saí do palco chorando de dor e as meninas vieram atrás de mim. Minha mãe, meu pai, minha irmã, o Dudu, o Oswaldo e os trigêmeos estavam nos esperando no nosso camarim.
Neide: O pessoal está lá fora querendo bater em vocês. Eles querem mais comida.
Sara: Manda a Xuxa ir lá fora agora e trazer todas as barraquinhas de cachorro-quente que ela vir pela cidade. vamos encher essa gente de cachorro-quente!
Neide: A Xuxa quer matar você, Sara. Ela e todas as outras apresentadoras infantis que te desprezaram na infância. Foi maldade o que você fez com o Roberto Carlos. Ele também está furioso! Aliás, todos os artistas estão querendo pegar você. E essa confusão vai espirrar em todos nós aqui. As crianças estão correndo risco e nós também. Eu não quero morrer agora. Até o dia 21 de dezembro, a gente ainda tem, praticamente, três meses.
Adalberto: Olha, arrombaram a porta do camarim. Vamos fugir!
Saímos pelos fundos e entramos no helicóptero alugado em que a Sara. O piloto se negou e levantar voo. Não nos restou outra alternativa, além de dar um soco na cara dele e deixá-lo caído no chão. Por sorte, o meu pai sabia conduzir um helicóptero. Pena que o senso espacial dele não é nada bom. Viemos parar no interior do Espírito Santo, no meio do mato, onde estamos até agora. Depois de dois dias sem comer nada e de andar mais de 30 quilômetros, chegamos a um vilarejo, que tem internet discada. Que glória! Eu não preciso de mais do que isso para escrever para os meus amigos.
Quem puder nos ajudar, o lugar se chama Escondidinho do Jaluru. É bem escondido mesmo. Mas dá para achar. A gente chegou até aqui...
Sara: Em caso da falta de um pai, é o padrinho que assume a responsabilidade.
Adalberto: Mas os seus filhos têm um pai, que, por sinal, dorme todo dia ao seu lado, na cama. Por que você não cobra atitude do Oswaldo?
Sara: Esquece o Oswaldo, Adal. O pai para essas coisas é você.
Adalberto: E o que você quer que eu faça?
Sara: Que você me ajude com os preparativos da festa das crianças, ué. Falta um mês.
Adalberto: Lindona, vamos fazer o seguinte: a Ane trabalha para o pai e tem mais flexibilidade em tirar dias de folga. Vai agilizando as coisas com ela que, daqui a dez dias, vencem as minhas férias e eu vou ter todo o tempo do mundo para te ajudar. Está bom assim?
Sara: Perfeito.
Perfeito nada. Essa foi a maior merda que eu fiz na minha vida. A Ane, viajandona do jeito que é, daquelas que acredita em qualquer coisa que falam para ela, fez a cabeça da Sara para fazer uma superprodução para os trigêmeos, porque já que o mundo vai acabar no dia 21 de dezembro de 2012, conforme o calendário maia, essa seria a única festa de aniversário que eles vão ter.
Dez dias depois, fui me encontrar com elas para ajudar nos preparativos.
Adalberto: E aí, meninas?
Ane: Tudo certo, Adal.
Medo.
Ane: Não precisamos de você mais para nada.
Sara: Como não? E a conta?
Ane: Ah, verdade. Só para pagara conta.
Adalberto: Mas eu vou pagar tudo sozinho?
Ane: Claro! Padrinho é para isso.
Sara: Mentira, Adal. Ela está querendo te assustar. Você só precisa me dar um milhão.
Eu ri porque, sinceramente, achei que ela estava de brincadeira. Um milhão é algo completamente fora da minha realidade, e que, mesmo trabalhando a vida toda, eu jamais conseguiria juntar isso. E ela sabia muito bem disso.
Ane: Está rindo de quê? É sério, Adal.
Adalberto: Como assim sério? Um milhão eu só conseguiria entrando para o Big Brother Brasil.
Ane: Ah, mais não ia mesmo. Insuportável do jeito que você é? Iam te tirar na primeira semana.
Adalberto: Então, pronto. Nem entrando para a casa do Big Brother Brasil eu conseguiria um milhão. Sara, isso é brincadeira, né?
Sara: Não, Adal. É sério. A conta ficou em dez milhões. Dividimos entre mim, você, Ane, Oswaldo, Marjorie, Lu, tia Neide, tio Beto, Camila e Dudu.
Adalberto: Como assim? As pessoas já sabem disso?
Sara: No caso... Não.
Adalberto: Sara, que loucura é essa? Por que você fez isso? Você está usando droga?
Sara: Adal, o mundo vai acabar no dia 21 de dezembro. Essa vai ser a única festa que eu vou poder fazer para os meus filhos.
Adalberto: Quem falou isso?
Ane: A Ane.
Adalberto: Ane, que loucura é essa?!
Ane: Alto lá! loucura, não! Isso é calendário maia. Filme "2012". Você não viu, não?
Adalberto: Não! Eu prefiro nem ver essas baboseiras. Não acredito nessas coisas. O homem não é Deus para dizer quando o mundo vai acabar. Sara, me admira você, que é tão temente a Deus, acreditar numa loucura dessas?
Sara: Ah, Adal, desculpa.
Adalberto: Desculpa, não. Você tem um milhão de reais na conta? Responde!
Sara: Não.
Adalberto: E você, Ane? Tem?
Ane: Não. Mas o meu pai tem. E ele pode me emprestar.
Adalberto: Ah, legal isso. O meu pai não tem. E mesmo se ele tivesse, ele não ia poder me emprestar, porque ele também vai ter que pagar um milhão para esse capricho de vocês duas. Olha, a pior coisa que eu fiz na minha vida foi pedir para a Sara resolver os preparativos dessa festa contigo. Você é doida! Aliás, vocês duas são doidas!
Sara: O pior é que não tem nem como voltar atrás, Adal. Já fechei com todo mundo.
Adalberto: Todo mundo quem? Com quem você fechou essa palhaçada?
Ane: Com a Xuxa, a Angélica, o Luciano Huck, o Faustão, o Serginho Groissman, a Ana Maria Braga, a Mara Maravilha, a Eliana, a Mariane, a Paty Beijo, a Maísa, o Rodrigo Faro, o Datena, o Ratinho, o Leão, o Leão Lobo, a Sônia Abrão, a Hebe, a Fátima Bernardes, o William Bonner, a Patrícia Poeta, a Ana Paula Padrão, o Didi, aliás, a turma inteira do Didi, o Bozo, o Topetão... Ai, é tanta gente... Cansei. Fala para ele o resto, Sara.
Adalberto: Não, não precisa! Não precisa falar o resto. Eu já vi que vocês, realmente, são duas loucas. Eu vou ligar para um hospício agora e pedir para virem buscar vocês agora! Vocês têm que ser amarradas com camisa de força! Como é que você faz uma coisa dessas, Sara?
Sara: Adal, você sabe que eu nunca gostei de nenhuma apresentadora infantil. Eu fui a todos os programas e nenhuma nunca me chamou para brincar.
Adalberto: Então, pronto! Você chamou um monte delas por quê?
Sara: Porque só pagando que elas não vão me desprezar. Só assim elas vão olhar para mim, falar comigo.
Caramba, fiquei com uma pena da Sara. A loucura dela não estava embasada no calendário maia. Mas num trauma de infância.
Adalberto: Ô, Sarita, vem cá.
Dei um abraço apertado nela e não consegui falar mais nada. E com base no calendário maia, no trauma da Sara e outros tipos de chantagem emocional, ajudei-as a contar para o resto da família sobre essa bomba.
E não adiantou nada. Todos quiseram matar a Sara. Até a Ane já estava meio arrependida da merda que tinha feito. Mas, agora, eu é que estava empenhado nessa causa. Eu sei o que é um trauma de infância. Eu não como ave, porque, quando era bem novinho, vi minha tia matando uma galinha para comer. Todo mundo me sacaneia por causa disso, insistem para eu experimentar comer, mas eu não consigo. É mais forte do que eu. Nem se me pagassem dez milhões eu comeria uma coxinha de galinha.
Todos pedimos empréstimos na esperança de que o mundo de fato acabasse no dia 21 de dezembro para não ter que passar a vida inteira pagando prestação. E, uma semana antes, eu, Ane, Lu e Marjorie fomo à casa da Sara para saber o que ela precisava falar com a gente, que era tão urgente.
Sara: Eu mandei fazer essas roupas aqui e nós vamos resgatar o Adalboy e as insuperáveis.
Adalboy e as insuperáveis era o nosso grupo musical. Coisa de criança, mas a gente até que levava a sério. Eu tinha certeza que íamos ficar famosos e viver da música. E as meninas também. A Sandy e o Júnior, que eram mais ou menos da nossa idade, cantavam pior e tinham um repertório bem mais fraco do que o nosso. Não era possível que a gente não ia fazer sucesso. Eu compus mais de 50 músicas. Tudo bem... Tinham umas que só tinham dois versos e vários lá, lá, lá, lá, lá. Mas eram músicas de qualidade. Se fosse hoje em dia, na era do lê, lê, lê, oi, oi, oi, tchu, tchá e todas as outras músicas monossilábicas que fazem o maior sucesso, a gente estaria bombando.
Adalberto: Claro! Nada melhor do que resgatar o Adalboy e as insuperáveis nesse momento! Um monte de gente bacana ia para festa dos trigêmeos.
Lu: Vai que o o Faustão chame a gente para se apresentar no programa dele?
Ane: E a gente explodindo com os nossos hits monossilábicos para todo o Brasil!
Marjorie: Bom, pelo menos, a gente vai ficar ficar rico e ter condições de pagar esses dez milhões.
Adalberto: Lógico! E o mundo não ia nem precisar acabar mais. Nunca mais! Sara, eu adorei essa ideia. Aliás, adorei tudo. Você a a Ane mandaram muito bem em organizar essa festa. Eu amo vocês!
O dia 27 de setembro caiu numa quinta-feira. E a Sara fez questão de comemorar na data.
A Angélica foi me buscar de táxi em casa, e eu achei que isso fizesse parte de alguma apresentação. Quem sabe o Adalboy e as insuperáveis não iam dar uma palinha com o Vou de táxi? Várias coisas se passaram pela minha cabeça, mas eu estava tão nervoso, ansioso e temeroso que não perguntei nada.
Só uma observação: a pinta da Angélica parece maior e mais feia. Prefiro pela televisão.
Cheguei na mesma hora que as meninas. Ane, Marjorie e Lu chegaram em táxis dirigidos, respectivamente, por Mara Maravilha, Eliana e Xuxa. Paty Beijo e Mariane eram as hostess. Achei estranho mas chegar à porta da HSBC Arena me embrulhou o estômago. Eu tinha ensaiado tudo com as meninas, mas ainda assim estava inseguro. Não é a Ivete Sangalo que diz que é normal sentir um friozinho na barriga antes de se apresentar? Artista que é artista sente isso.
Quando entramos, uma coisa me saltou aos olhos: os convidados eram xexelentas, mal vestidos e o pior: fediam mais do que gambá. E o curioso foi ver os outros apresentadores e artistas, servindo a eles.
Adalberto: Sara, o que é que Luciano Huck está fazendo com aquela bandeja cheia de croquete?
Sara: Servindo, ué. Eu contratei ele para isso. Não só ele como todas as outras celebridades. Celebridade hoje aqui somos nós.
Adalberto: E quem são essas pessoas imundas:
Sara: O povo que passa fome e fica zanzando pelas ruas, atrás de saquinho de Come e Damião. Eu quero essa gente de barriga cheia. Hoje, eles vão comer muito. E pelas mãos de quem tem muito. Olha lá que lindo o Faustão servindo quibe naquela mesa! Adoro!
Adalberto: Meus Deus. Como você é cruel.
Sara: Cruel nada, primo. Isso é inversão de valores.
Adalberto: É...
Minha mãe ficou inconformada ao ver o rei Roberto Carlos, recolhendo as latinhas que aquela gente sem educação jogava no chão. E tomou um baita esporro da Sara, porque estava ajudando o pobre coitado no serviço.
Sara: Tia Neide. Para agora de recolher latinha. O Roberto Carlos, o Fábio Júnior e o Chico Buarque estão aqui para isso. O seu lugar é lá em cima! Sentada no camarote. Vai para lá, anda! A nossa apresentação já vai começar.
A minha camareira foi a Marina Lima. Confesso que fiquei meio sem graça por ela. Eu sinto vergonha alheia, não tem jeito.
Era muito artista trabalhando naquela festa. Eu estava assutado. O povo da Tropicália cuidando do som, os Novos Baianos, da luz. Essa gente toda iria me ver cantando! Senti uma responsabilidade e uma dor de barriga fortíssimas.
E na hora do show, quando eu vinha descendo de uma corda, tipo uma tirolesa, que me levava ao centro do palco, me caguei lá do alto e sujei as primas, que estavam embaixo, fazendo a coreografia da primeira música. Todos riram copiosamente. Principalmente, os artistas. O Jô Soares quase morreu de tanto que achou graça da nossa cara. O cara ficou sem ar!
A Sara disse que não era para parar. E continuamos assim mesmo. Todos sujos de merda. O cheiro nem incomodou muito. No lugar já imperava uma fedentina anterior a minha cagada.
O curioso é que parecia que a gente estava agrandando aos xexelentos. Até que acabou a comida. A Sara se preocupou tanto em convidar a nata da classe artística, que não pensou na quantidade certa de comida. Essa gente come...
O Roberto Carlos parou de ter trabalho. Os xexelentos pegavam as latinhas jogadas no chão e tacavam na gente. isso, claro, acompanhado por muitas vaias. A Sara queria continuar. Eu continuei com o show até que fui atingido na altura do supercílio, que sangrava incessantemente. Saí do palco chorando de dor e as meninas vieram atrás de mim. Minha mãe, meu pai, minha irmã, o Dudu, o Oswaldo e os trigêmeos estavam nos esperando no nosso camarim.
Neide: O pessoal está lá fora querendo bater em vocês. Eles querem mais comida.
Sara: Manda a Xuxa ir lá fora agora e trazer todas as barraquinhas de cachorro-quente que ela vir pela cidade. vamos encher essa gente de cachorro-quente!
Neide: A Xuxa quer matar você, Sara. Ela e todas as outras apresentadoras infantis que te desprezaram na infância. Foi maldade o que você fez com o Roberto Carlos. Ele também está furioso! Aliás, todos os artistas estão querendo pegar você. E essa confusão vai espirrar em todos nós aqui. As crianças estão correndo risco e nós também. Eu não quero morrer agora. Até o dia 21 de dezembro, a gente ainda tem, praticamente, três meses.
Adalberto: Olha, arrombaram a porta do camarim. Vamos fugir!
Saímos pelos fundos e entramos no helicóptero alugado em que a Sara. O piloto se negou e levantar voo. Não nos restou outra alternativa, além de dar um soco na cara dele e deixá-lo caído no chão. Por sorte, o meu pai sabia conduzir um helicóptero. Pena que o senso espacial dele não é nada bom. Viemos parar no interior do Espírito Santo, no meio do mato, onde estamos até agora. Depois de dois dias sem comer nada e de andar mais de 30 quilômetros, chegamos a um vilarejo, que tem internet discada. Que glória! Eu não preciso de mais do que isso para escrever para os meus amigos.
Quem puder nos ajudar, o lugar se chama Escondidinho do Jaluru. É bem escondido mesmo. Mas dá para achar. A gente chegou até aqui...
sábado, 22 de setembro de 2012
Consolo para amiga da Sara vale por um tênis caro
Ontem, quando ia buscar meu carro no estacionamento da Cobal do Humaitá, vi minha prima Sara com uma amiga, que estava aos prantos, numa pizzaria. Fui até elas.
Sara: Adal, você pode levar a gente em casa? O Oswaldo ainda está no trabalho. Vai demorar para chegar aqui. Acho melhor ela ir para casa descansar um pouco. Já estamos há muito tempo na rua.
Adalberto: Claro que levo.
Danusa: Eu tenho que pagar a conta.
Adalberto: Está tudo bem?
Sara: Oi, primo. Essa aqui é a Danusa. Ela está mal, porque perdeu o companheiro dela.
Acho cafona chamar marido/namorado de companheiro, mas isso nem chegou a me incomodar, tamanho era o sofrimento da pobre da Danusa.
Adalberto: Olha, a gente nunca sabe o que falar nessas horas. O que eu te desejo é muita paz para seguir em frente o teu caminho, agora, sem a presença física dele. Mas pode ter certeza que ele vai estar sempre ao seu lado, em espírito.
Danusa: Obrigada. Ele é o amor da minha vida.
Adalberto: Que bom que você encontrou o amor da sua vida. Muita gente passa a vida toda atrás de um e não encontra. E você ainda o tem. Ele não está aqui, mas continua sendo seu.
Sara: Eu falei isso para ela.
Danusa: Sabe aquele parceirão? Ele acordava comigo todos os dias, me acompanhava até o ponto do ônibus e, quando eu voltava do trabalho, ele estava lá me esperando.
Adalberto: Que bacana.
Sara: Oi, primo. Essa aqui é a Danusa. Ela está mal, porque perdeu o companheiro dela.
Acho cafona chamar marido/namorado de companheiro, mas isso nem chegou a me incomodar, tamanho era o sofrimento da pobre da Danusa.
Adalberto: Olha, a gente nunca sabe o que falar nessas horas. O que eu te desejo é muita paz para seguir em frente o teu caminho, agora, sem a presença física dele. Mas pode ter certeza que ele vai estar sempre ao seu lado, em espírito.
Danusa: Obrigada. Ele é o amor da minha vida.
Adalberto: Que bom que você encontrou o amor da sua vida. Muita gente passa a vida toda atrás de um e não encontra. E você ainda o tem. Ele não está aqui, mas continua sendo seu.
Sara: Eu falei isso para ela.
Danusa: Sabe aquele parceirão? Ele acordava comigo todos os dias, me acompanhava até o ponto do ônibus e, quando eu voltava do trabalho, ele estava lá me esperando.
Adalberto: Que bacana.
Danusa: Ele ficava em casa o dia todo, mas não fazia bagunça.
O cara devia ser um gigolô, pelo visto, mas aquele não era o momento de fazer juízo de valor.
Sara: Nem agora, no finalzinho da vida, ele deu trabalho, né?
Danusa: Nada, nada.
Adalberto: Ele morreu de quê?
Danusa: Falência múltipla dos órgãos. Mas era por causa da idade mesmo. Ele durou até mais do que deveria.
Caramba, então, o cara não trabalhava, porque já devia ser aposentado. E eu achando que o cara era gigolô. Ô, mente podre a minha.
Adalberto: Olha, então, eu vou te falar uma coisa. Você tem mais é que agradecer a Deus, que deixou ele ficar aqui no mundo mais tempo com você. A gente nunca está preparado para a morte, claro, mas se você mesma está dizendo que ele durou mais do que deveria, você é uma pessoa de sorte.
Sara: O Adal está certo, amiga.
Danusa: Eu sei. Mas é muito difícil.
O cara devia ser um gigolô, pelo visto, mas aquele não era o momento de fazer juízo de valor.
Sara: Nem agora, no finalzinho da vida, ele deu trabalho, né?
Danusa: Nada, nada.
Adalberto: Ele morreu de quê?
Danusa: Falência múltipla dos órgãos. Mas era por causa da idade mesmo. Ele durou até mais do que deveria.
Caramba, então, o cara não trabalhava, porque já devia ser aposentado. E eu achando que o cara era gigolô. Ô, mente podre a minha.
Adalberto: Olha, então, eu vou te falar uma coisa. Você tem mais é que agradecer a Deus, que deixou ele ficar aqui no mundo mais tempo com você. A gente nunca está preparado para a morte, claro, mas se você mesma está dizendo que ele durou mais do que deveria, você é uma pessoa de sorte.
Sara: O Adal está certo, amiga.
Danusa: Eu sei. Mas é muito difícil.
Adalberto: Eu imagino que seja. Aliás, eu tenho certeza que é. Mas o negócio é transformar essa tristeza em saudade e conformação. E, com o tempo, tudo isso se dilui e só vai ficar o amor. Mas, agora, o que você tem que fazer mesmo é chorar. Chora para deixar ir embora todo esse aperto que você sente dentro.
E a coitada da Danusa soluçava de tanto chorar.
Sara: Adal, você pode levar a gente em casa? O Oswaldo ainda está no trabalho. Vai demorar para chegar aqui. Acho melhor ela ir para casa descansar um pouco. Já estamos há muito tempo na rua.
Adalberto: Claro que levo.
Danusa: Eu tenho que pagar a conta.
Adalberto: De jeito nenhum. Deixa comigo.
Se eu soubesse que a conta daria o valor do tênis, que eu não tive coragem de comprar porque achei caro, eu jamais faria essa gentileza para a viúva chorona. Minha compaixão se transformou em ódio mortal.
Danusa: Obrigada, Adalberto.
Não falei nada, porque, se eu abrisse a boca, ia mandá-la à merda. Que viúva é essa que sente tanta fome, assim, gente? Eu, hein...
Sara: Adal, para aqui no sinal. Minha casa é aqui.
Adalberto: Eu sei. Você não vai deixar Danusa comigo? Eu te deixo aqui depois.
Sara: Não, primo. Os trigêmeos ainda não devem ter dormido e a babá já deve estar morta. Vou ficar aqui mesmo.
Adalberto: Beleza.
Deixei o viúva na porta de casa. Apesar do ódio, fui educado com ela.
Se eu soubesse que a conta daria o valor do tênis, que eu não tive coragem de comprar porque achei caro, eu jamais faria essa gentileza para a viúva chorona. Minha compaixão se transformou em ódio mortal.
Danusa: Obrigada, Adalberto.
Não falei nada, porque, se eu abrisse a boca, ia mandá-la à merda. Que viúva é essa que sente tanta fome, assim, gente? Eu, hein...
Sara: Adal, para aqui no sinal. Minha casa é aqui.
Adalberto: Eu sei. Você não vai deixar Danusa comigo? Eu te deixo aqui depois.
Sara: Não, primo. Os trigêmeos ainda não devem ter dormido e a babá já deve estar morta. Vou ficar aqui mesmo.
Adalberto: Beleza.
Deixei o viúva na porta de casa. Apesar do ódio, fui educado com ela.
Adalberto: Vai lá, querida. Força.
Sara: O pior é chegar aqui é não ouvi-lo latindo.
Como assim latindo?!
Adalberto: A gente estava falando de um cachorro?
Danusa: Sim. Você não sabia? O Tchuco era um cocker spaniel.
Para que eu fui perguntar isso?! Eu sei que muita gente trata bicho como gente e chora copiosamente quando o seu animalzinho de estimação morre. Mas, para mim, bicho é bicho. Eu fiquei triste quando a Charlotte, a minha basset alemão, morreu, mas no mesmo dia, eu fui com uns amigos a uma rave. Minha mãe achou que eu deveria ter ficado em casa, mas eu já tinha comprado a entrada há meses. Fora que eu adorava o DJ que ia tocar. E todos os meus amigos iam...
Olha, eu fiquei vermelho de raiva da Danusa. Se eu tivesse uma arma, mandaria ele para junto do Tchuco. Que ódio de mim por ter pagado aquela conta caríssima da pizzaria no fim do mês, quando eu já estou completamente duro, por pena de uma mulher, que eu achei que tivesse ficado viúva.
Ela entrou em casa, e eu queria ter dito milhões de desaforos para ela. Eu queria ter pedido o meu dinheiro de volta. Eu queria voltar no tempo. Eu queria bater na Sara. Eu queria me matar. Mas, sobretudo, eu queria ter comprado aquele tênis que eu achei caro e não levei.
Voltei para casa chorando de raiva. E morrendo de fome. Abri a geladeira e só tinha pizza. Isso me embrulhou o estômago de raiva. Fui dormir porque era o melhor que eu podia fazer...
Sara: O pior é chegar aqui é não ouvi-lo latindo.
Como assim latindo?!
Adalberto: A gente estava falando de um cachorro?
Danusa: Sim. Você não sabia? O Tchuco era um cocker spaniel.
Para que eu fui perguntar isso?! Eu sei que muita gente trata bicho como gente e chora copiosamente quando o seu animalzinho de estimação morre. Mas, para mim, bicho é bicho. Eu fiquei triste quando a Charlotte, a minha basset alemão, morreu, mas no mesmo dia, eu fui com uns amigos a uma rave. Minha mãe achou que eu deveria ter ficado em casa, mas eu já tinha comprado a entrada há meses. Fora que eu adorava o DJ que ia tocar. E todos os meus amigos iam...
Olha, eu fiquei vermelho de raiva da Danusa. Se eu tivesse uma arma, mandaria ele para junto do Tchuco. Que ódio de mim por ter pagado aquela conta caríssima da pizzaria no fim do mês, quando eu já estou completamente duro, por pena de uma mulher, que eu achei que tivesse ficado viúva.
Ela entrou em casa, e eu queria ter dito milhões de desaforos para ela. Eu queria ter pedido o meu dinheiro de volta. Eu queria voltar no tempo. Eu queria bater na Sara. Eu queria me matar. Mas, sobretudo, eu queria ter comprado aquele tênis que eu achei caro e não levei.
Voltei para casa chorando de raiva. E morrendo de fome. Abri a geladeira e só tinha pizza. Isso me embrulhou o estômago de raiva. Fui dormir porque era o melhor que eu podia fazer...
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