Ontem, a Marjorie me
ligou com uma voz um pouco alterada. Eu estava enroladaço
no trabalho, mas como ela disse que era um caso de vida ou morte, parei tudo
para atendê-la.
Adalberto: Eu detesto
quando vocês me manipulam com o bordão “é um caso de vida ou morte”. O pior é
que eu sempre caio nessa. Fala logo, porque eu estou ocupado.
Marjorie: Você não vai
acreditar no que eu fui capaz de fazer.
Adalberto: Não sei.
Mas, só de você falar assim, me dá medo.
Marjorie: Eu abri um
perfil num site de relacionamento.
Adalberto: Ah, não
vejo nada demais nisso. As pessoas têm um preconceito, uma visão de que o
espaço virtual é uma coisa menor. Mas, não. É apenas outro meio de se
relacionar. Não vejo problema nenhum nisso.
Marjorie: Eu concordo
com você. Mas se você visse Eviseu, iria cair para trás.
Adalberto: Quem seria
Eviseu?
Marjorie: O carinha
que eu encontrei no sábado. Uma decepção, Adal.
Adalberto: Mas você
não trocou foto, não falou com ele na webcam? Hoje em dia, esses dispositivos
impedem que as pessoas mintam sobre si.
Marjorie: Impedem até
a página dois.
Adalberto: O virtual
nunca vai ser cem por cento igual ao real, Jojô.
Marjorie: Não mesmo. A
foto que o Eviseu me mandou era incrível, num ângulo que super deixava ele com
o maior corpaço, mas...
Adalberto: Quando você
o encontrou, ele não era tão interessante quanto parecia.
Marjorie: Nem tão
alto. O cara tinha um metro e cinquenta, e eu acho que ainda estou sendo
generosa.
Adalberto: Sério?
Marjorie: E o pior é
que eu fui estilo mulher de vida fácil, com um salto altíssimo. Homem gosta
disso. Então, pensei: vou vulgar a medida do possível para ver se alcanço o meu
objetivo.
Adalberto: Fez bem.
Você é muito estilosa, chique, moderninha. Isso assusta.
Marjorie: Pois é, mas
ontem foi um dia que eu queria ter assustado. Primo, eu queria morrer!
Adalberto: E o que
você fez?
Marjorie: Nossa, só
faltou eu agredir fisicamente o cara. Falei um monte. Acabei com ele.
Adalberto: Então, você
desceu do salto? Coitada do
cara. Ele tem culpa por ser baixinho?
Marjorie: Não. Mas por
retorcer a realidade. Ele podia ter me falado a altura.
Adalberto: Podia. Mas
tem gente que conserva aquela esperança de que um bom papo, a sua maneira de
ser vão suplantar certos problemas como...
Marjorie: A baixíssima
estatura.
Adalberto: É. Na verdade
isso não chega a ser um problema, né? A gente acaba sendo preconceituoso
tratando dessa maneira. É só a situação do cara.
Marjorie: Ai, primo,
eu nem ia te contar. Mas você não sabe da maior.
Adalberto: Ainda tem
mais coisa?
Marjorie: Eu recebi
uma encomenda de 200 bolsas.
A Marjorie, para quem
ainda não sabe, é designer de bolsas.
Adalberto: Ai, meu Deus. Fala logo que a loja que te encomendou essas bolsas é onde o Eviseu trabalha.
Marjorie: A loja que me encomendou essas bolsas é do Eviseu.
Adalberto: Ele é o dono?
Marjorie: Bingo!
Adalberto: Mentira!
Marjorie: Sério.
Adalberto: Como é que
você descobriu isso?
Marjorie: Ele ligou
para cá e se identificou. Eviseu só existe um no mundo. Fora que a voz dele é
irreconhecível.
Adalberto: E ele não
reconheceu a sua?
Marjorie: Graças a
Deus, não.
Adalberto: Que bom.
Marjorie: Mais ou
menos, primo. Ele quer se encontrar comigo para passar umas ideias.
Adalberto: Jesus! E
aí?
Marjorie: E aí que,
como a Sara não faz porra nenhuma o dia inteiro, ela vai me representar nessa reunião.
E você vai junto para garantir que ela não vai abrir a boca para falar bobagem.
É a minha imagem que está em jogo, primo. Você quebra essa para mim?
Adalberto: Mas e os trigêmeos?
Marjorie: Vão ficar com a babá.
Adalberto: Nossa, ela está evoluindo. Ela nunca fez isso.
Marjorie: E nem ia fazer. Eu tive que implorar para ela me quebrar esse galho.
Adalberto: E a que horas eu tenho que sair?
Marjorie: Tipo assim:
agora!
Adalberto: Não
acredito.
Marjorie: Anda logo, primo. Só você pode fazer isso por mim.
O pior é que eu fui.
Na boa, eu devo estar à beira da demissão, por causa dos
milhões de incêndios, que eu sou obrigado a apagar para as minhas primas. Mas eu não consigo dizer não para elas...
A reunião, como já era
de se imaginar, foi um fiasco. A Sara falou todas as besteiras possíveis e imagináveis
que ela foi capaz, com ideias cafonas e datadas sobre bolsas, queimando
totalmente o filme da Marjorie.
Pelo menos, foi
divertido. A Marjorie é que não ficou muito feliz, quando contamos para ela.
Marjorie: Pô, eu sabia
que a Sara ia falar um monte de asneiras.
Sara: Se você já
sabia, por que me mandou no seu lugar?
Marjorie: Porque o
Adal foi junto para te censurar.
Adalberto: Mas não
adiantou. Ela não deixava ninguém falar. Parecia o grande momento da vida dela.
A Sara estava se achando a entendedora de bolsas.
Marjorie: Meu Deus,
que vergonha.
Sara: Ah, gente, não
conta mais comigo para essas coisas, não.
Marjorie: Não mesmo!
Adalberto: Gente,
valeu a tentativa.
Marjorie: O cara, pelo
menos, fechou com vocês?
Adalberto: Fechou!
Fechou foi a porta na nossa cara! O cara ficou tão irritado com a Sara, que falava
como uma maritaca, que saiu furioso, batendo a porta e tudo.
Marjorie: Nossa, ele
foi escroto assim?
Adalberto: É... Hoje
foi o dia dele descer do salto.
Marjorie: Ah, não me faça
rir, Adal. O Eviseu desceu do salto? Ele é mais baixo do que o salto...
Como essa minha prima
é sarcástica...
No fim das contas,
ficou tudo a seis por meia-dúzia. A Marjorie não ficou com o Eviseu e ele não
fechou com a fábrica dela.
Hoje, quando cheguei no meu trabalho com a cara mais lavada do mundo, cheio de coisas para fazer, por incrível que pareça, ninguém comentou nada. É... Não foi dessa vez que um caso de vida ou morte das minhas
primas me fez perder meu emprego.
Nenhum comentário:
Postar um comentário