terça-feira, 5 de junho de 2012

Marjorie desce do salto com baixinho, que desce do salto com Sara e tudo acaba em seis por meia-dúzia


Ontem, a Marjorie me ligou com uma voz um pouco alterada. Eu estava enroladaço no trabalho, mas como ela disse que era um caso de vida ou morte, parei tudo para atendê-la.

Adalberto: Eu detesto quando vocês me manipulam com o bordão “é um caso de vida ou morte”. O pior é que eu sempre caio nessa. Fala logo, porque eu estou ocupado.

Marjorie: Você não vai acreditar no que eu fui capaz de fazer.

Adalberto: Não sei. Mas, só de você falar assim, me dá medo.

Marjorie: Eu abri um perfil num site de relacionamento.

Adalberto: Ah, não vejo nada demais nisso. As pessoas têm um preconceito, uma visão de que o espaço virtual é uma coisa menor. Mas, não. É apenas outro meio de se relacionar. Não vejo problema nenhum nisso.

Marjorie: Eu concordo com você. Mas se você visse Eviseu, iria cair para trás.

Adalberto: Quem seria Eviseu?

Marjorie: O carinha que eu encontrei no sábado. Uma decepção, Adal.

Adalberto: Mas você não trocou foto, não falou com ele na webcam? Hoje em dia, esses dispositivos impedem que as pessoas mintam sobre si.

Marjorie: Impedem até a página dois.

Adalberto: O virtual nunca vai ser cem por cento igual ao real, Jojô.

Marjorie: Não mesmo. A foto que o Eviseu me mandou era incrível, num ângulo que super deixava ele com o maior corpaço, mas...

Adalberto: Quando você o encontrou, ele não era tão interessante quanto parecia.

Marjorie: Nem tão alto. O cara tinha um metro e cinquenta, e eu acho que ainda estou sendo generosa.

Adalberto: Sério?

Marjorie: E o pior é que eu fui estilo mulher de vida fácil, com um salto altíssimo. Homem gosta disso. Então, pensei: vou vulgar a medida do possível para ver se alcanço o meu objetivo.

Adalberto: Fez bem. Você é muito estilosa, chique, moderninha. Isso assusta.

Marjorie: Pois é, mas ontem foi um dia que eu queria ter assustado. Primo, eu queria morrer!

Adalberto: E o que você fez?

Marjorie: Nossa, só faltou eu agredir fisicamente o cara. Falei um monte. Acabei com ele.

Adalberto: Então, você desceu do salto? Coitada do cara. Ele tem culpa por ser baixinho?

Marjorie: Não. Mas por retorcer a realidade. Ele podia ter me falado a altura.

Adalberto: Podia. Mas tem gente que conserva aquela esperança de que um bom papo, a sua maneira de ser vão suplantar certos problemas como...

Marjorie: A baixíssima estatura.

Adalberto: É. Na verdade isso não chega a ser um problema, né? A gente acaba sendo preconceituoso tratando dessa maneira. É só a situação do cara.

Marjorie: Ai, primo, eu nem ia te contar. Mas você não sabe da maior.

Adalberto: Ainda tem mais coisa?

Marjorie: Eu recebi uma encomenda de 200 bolsas.

A Marjorie, para quem ainda não sabe, é designer de bolsas.

Adalberto: Ai, meu Deus. Fala logo que a loja que te encomendou essas bolsas é onde o Eviseu trabalha.

Marjorie: A loja que me encomendou essas bolsas é do Eviseu.

Adalberto: Ele é o dono?

Marjorie: Bingo!

Adalberto: Mentira!

Marjorie: Sério.

Adalberto: Como é que você descobriu isso?

Marjorie: Ele ligou para cá e se identificou. Eviseu só existe um no mundo. Fora que a voz dele é irreconhecível.

Adalberto: E ele não reconheceu a sua?

Marjorie: Graças a Deus, não.

Adalberto: Que bom.

Marjorie: Mais ou menos, primo. Ele quer se encontrar comigo para passar umas ideias.

Adalberto: Jesus! E aí?

Marjorie: E aí que, como a Sara não faz porra nenhuma o dia inteiro, ela vai me representar nessa reunião. E você vai junto para garantir que ela não vai abrir a boca para falar bobagem. É a minha imagem que está em jogo, primo. Você quebra essa para mim?

Adalberto: Mas e os trigêmeos?

Marjorie: Vão ficar com a babá.

Adalberto: Nossa, ela está evoluindo. Ela nunca fez isso.

Marjorie: E nem ia fazer. Eu tive que implorar para ela me quebrar esse galho.

Adalberto: E a que horas eu tenho que sair?

Marjorie: Tipo assim: agora!

Adalberto: Não acredito.

Marjorie: Anda logo, primo. Só você pode fazer isso por mim.

O pior é que eu fui. 

Na boa, eu devo estar à beira da demissão, por causa dos milhões de incêndios, que eu sou obrigado a apagar para as minhas primas. Mas eu não consigo dizer não para elas...

A reunião, como já era de se imaginar, foi um fiasco. A Sara falou todas as besteiras possíveis e imagináveis que ela foi capaz, com ideias cafonas e datadas sobre bolsas, queimando totalmente o filme da Marjorie.

Pelo menos, foi divertido. A Marjorie é que não ficou muito feliz, quando contamos para ela.

Marjorie: Pô, eu sabia que a Sara ia falar um monte de asneiras.

Sara: Se você já sabia, por que me mandou no seu lugar?

Marjorie: Porque o Adal foi junto para te censurar.

Adalberto: Mas não adiantou. Ela não deixava ninguém falar. Parecia o grande momento da vida dela. A Sara estava se achando a entendedora de bolsas.

Marjorie: Meu Deus, que vergonha.

Sara: Ah, gente, não conta mais comigo para essas coisas, não.

Marjorie: Não mesmo!

Adalberto: Gente, valeu a tentativa.

Marjorie: O cara, pelo menos, fechou com vocês?

Adalberto: Fechou! Fechou foi a porta na nossa cara! O cara ficou tão irritado com a Sara, que falava como uma maritaca, que saiu furioso, batendo a porta e tudo.

Marjorie: Nossa, ele foi escroto assim?

Adalberto: É... Hoje foi o dia dele descer do salto.

Marjorie: Ah, não me faça rir, Adal. O Eviseu desceu do salto? Ele é mais baixo do que o salto...

Como essa minha prima é sarcástica...

No fim das contas, ficou tudo a seis por meia-dúzia. A Marjorie não ficou com o Eviseu e ele não fechou com a fábrica dela.

Hoje, quando cheguei no meu trabalho com a cara mais lavada do mundo, cheio de coisas para fazer, por incrível que pareça, ninguém comentou nada. É... Não foi dessa vez que um caso de vida ou morte das minhas primas me fez perder meu emprego. 

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