Acabei de voltar do shopping. Fiz minhas compras de Natal, com o dinheiro que recebi de uma companhia aérea, por ter extraviado as minhas malas. Aliás, mesmo tendo passado apenas uma semana de que voltei do Uruguai, ainda estou cansado. E olha que o horário de lá é como o daqui. Ou seja, não tenho nem como dar a desculpa do fuso. Se bem que passar seis dias com a Ane, a Lu e a Marjorie já é o suficiente. Se a Sara não tivesse perdido o vôo, talvez a viagem tivesse sido mais regrada:
Adalberto: Não acredito.
Sara: Pois é. O Oswaldo esqueceu que o Rio de Janeiro virou um canteiro de obras. Chegamos com cinco minutos de atraso.
Adalberto: Putz.
Sara: Onde você ta agora?
Adalberto: No Punta Shopping. Aqui em Punta.
Sara: É legal?
Adalberto: Legal é. Mas não um puta shopping.
Sara: Cadê as meninas?
Adalberto: A Lu ta usando o quarto com o Pablito, por isso que eu to aqui fazendo hora; a Ane ta dormindo, porque saiu ontem e deve ter chegado tarde; e a Marjorie tá numa lan house trabalhando. Deu alguma merda lá na fábrica.
Sara: Poxa, Adal, que pena que não deu pra eu ir. Eu seria sua companhia.
Adalberto: É... Pelo menos, aqui em Punta, se não fosse a chuva, teria mais coisas pra se fazer do que em Montevideu, que é, praticamente, um Campos dos Goytacazes.
Sara: Jura? Ainda bem que eu não fui.
Adalberto: É... Eu já te falei que a comida daqui é completamente sem sal?
Sara: Não.
Adalberto: A comida daqui é completamente sem sal.
Sara: Primo, que furada.
Adalberto: Furada é pouco, babe.
Naquela tarde, eu iria visitar a Casapueblo, do artista plástico Vilaró sem a vitalidade. Mal sabia que esse programa ia valer a minha viagem semifrustrante. Antes, além da triste notícia de que tinha perdido a Marjorie para uma lan house, fui surpreendido por mais dois problemas, quando cheguei ao hotel:
Lu: O Pablito veio aqui pra me contar, que tá namorando. Nem quis me comer. Tô arrasada.
Adalberto: Ou seja, o motivo da sua viagem te trocou por outra.
Lu: Desculpa, primo.
Adalberto: Por quê?
Lu: Eu inventei essa droga de viagem só por causa dele.
Adalberto: Ah, relaxa, Lu. Eu vim porque quis. Até que tá legal.
Mentira. Estava um saco. Nem praia a gente pôde aproveitar, porque só chovia.
Lu: Vai fazer o que hoje?
Adalberto: Não sei. Estava pensando em dar um pula na Casapueblo. Vamo?
Lu: Vamo.
Adalberto: Ih, a Ane tá me ligando. Alô... Mentira! Você é muito ingênua. Como é que você leva um cara, que você nem conhece?
Ane: Ele disse que era jogador de futebol, rico, famoso, que ia jogar na Libertadores.
Adalberto: Imagina. Se ele fosse isso tudo ele não estaria passando férias aqui.
Ane: Mas ele é daqui, Adal.
Adalberto: Mais um motivo. Já não chega ter nascido nesse lugar ermo?
Ane: Eu preciso ir a um shopping comprar um Iphone pra Marjorie urgente.
Adalberto: Ele roubou o celular da Marjorie?
Ane: Arrã.
Adalberto: Vamo na delegacia dar parte desse cara agora!
Ane: Não!
Adalberto: Por que não?
Ane: Porque eles vão pedir as imagens do hotel e a multa que eu vou pagar, por ter trazido gente pro meu quarto todos os dias, vai ser bem maior do que o valor do Iphone da Marjorie.
Caramba!
E caramba foi a única coisa que veio a minha mente.
Adalberto: Tá. Te encontro na porta do seu hotel em 15 minutos. A Lu também vai.
Quando saímos do shopping, fomos direto à lan house, onde a Marjorie estava internada a trabalho.
Ane: Seu presente de Natal antecipado.
Isso ela falou com a cara mais lavada desse mundo.
Marjorie: Como assim?
Ane: Abre.
Marjorie: Um Iphone? Eu já tenho o meu.
Ane: Prima, o seu não tá mais entre nós.
A explicação do celular roubado rendeu duas telas de LCD quebradas e um mouse, que serviu como chicote, destruído. Essa foi uma das poucas vezes, que eu vi a Marjorie perdendo a cabeça. Ainda bem que o prejuízo foi um Pesos Urugaios. Tanto da lan house, como da fiança que ela teve que pagar pra ser liberada da cadeia.
No dia seguinte, era o dia de voltarmos para o Brasil. E de eu realizar um dos maiores sonhos da minha vida: ir embora do Uruguai. Mesmo com o horário apertado, fui à Casapueblo. Precisava ir a algum lugar turístico pra fazer foto. Até então, nada naquele lugar valera um registro. O meu Facebook não podia passar incólume por essa viagem. Deixei de tomar café no hotel, que não era lá essas coisas, pra poder dar tempo. Lá, fui recebido por um senhor, que foi tão solícito comigo, que chegava a irritar:
Carlos: É brasileiro? Eu também falo português. Tenho uma neta que mora em São Paulo.
Adalberto: Eu sou do Rio.
Falei isso porque queria, de alguma forma, deixá-lo constrangido. Mas não consegui. Vai ver ele não sabe da rivalidade entre Rio e São Paulo. A neta dele não devia ser tão próxima assim. Talvez isso explicasse a carência dele.
Carlos: Vem cá que eu vou te apresentar a minha filha.
Agora entendi... Ele me achou um bom partido e, vai ver, quer desencalhar a filha solteirona. Que saco. Não conseguia me desvencilhar dele. O pior é que todo mundo ficava olhando para ele e sorrindo. Vai ver sabiam da furada que ele estava aprontando pra mim.
Carlos: Essa aqui é minha filha. Aqueles quadros foram todos pintados por ela.
Como assim? Eu to louco ou ela é a filha do Carlos Paez Vilaró? Eu to mais louco ainda ou esse cara, que, até pouco tempo era o mala do século, é o Carlos Paez Vilaró?
Agó: Muito prazer.
Adalberto: Prazer.
Eu estava tão constrangido, que o que eu disse pareceu um pedido de desculpas. Mas, depois de 15 minutos, e uma cachaça maravilhosa, que eu tomei com os Vilaró, já parecia um deles. Tirando a minha falta de habilidade pras artes plásticas, claro.
Falamos da guerra da polícia do Rio contra os bandidos da Vila Cruzeiro, do governo do Lula, do Pelé, do Oscar Niemeyer, das praias do Rio de Janeiro, das nossas famílias, das nossas vidas. Menos de São Paulo. E não foi por falta de tentativa deles.
Esse encontro valeu a viagem. Suplantou todos os problemas que aconteceram e os que ainda vieram a acontecer – a perda das minhas malas – na viagem.
Agora, tenho dois amigos pra botar no currículo.
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